Mordi aquele pãozinho dourado, crocante, e viajei de mala e cuia para Euclides da Cunha. Fui parar em um ensolarado fim de tarde sentado ao batente de “O Crediário”,(onde esta a letra T) para quem não sabe a primeira loja de eletrodomésticos da cidade. E olha que, naquele tempo, sequer existia essa expressão. “O Crediário” vendia de tudo. Fogão, Geladeira, rádio Zilomag, porta de aço, bateria Heliar e até tratuá que nada mais era do que o piso externo de origem francesa, corruptela de “trottoir”, palavra que, hoje define uma atividade não tão nobre.
Do outro lado da “imensa
avenida”, era assim que eu a enxergava até ali pelos meus 10 anos, estava a
padaria de João Costa, o produtor daquela delícia que, até hoje, frequenta a
minha memória gustativa. João Costa, além de padeiro, era também, delegado de polícia.
Um homem alegre, inteligente e de uma impressionante velocidade de raciocínio.
Naquela época, era assim! Os mais importantes cidadãos eram os comerciantes.
Era também padeiro, o Raimundo Thomaz, ainda vivo e saudável, aos quase 90 anos
e à frente dos seus negócios que dizem ser grandes.
O dono de “O Crediário” era meu pai, Jaime Amorim, que todos os dias, ao
final da tarde, ordenava ao Dedé de Tutu ou ao Chico da Judite “Chico, vai ali
ao João Costa e traz seis amanteigados”. Eles eram ajudantes do meu pai. O
amanteigado era o pão quentinho feito pelo João Costa e untado com uma generosa
quantidade de manteiga “Radiante” que era aplicada ao pão com uma espátula de
madeira. O Dedé, hoje, deve ser um homem com cerca de 60 anos e vive em São
Paulo. O Chico foi brutalmente assassinado em um dos becos da cidade, com menos
de 20 anos de idade. Era um sujeito espirituoso, um piadista nato. Sua morte
causou imensa consternação.
O sol escaldante desaparecia no fim da tarde e, a noite
começava no Café Society ou Bar de Zezito como preferiam outros. O Café Society
ficava na esquina da “imensa avenida”, a Ruy Barbosa, com a Praça Duque de Caxias, então apelidada
de “Praça do Pau de Oliveira Brito”. Quem conhece a história da cidade sabe o
porquê do apelido. Quem não conhece não pergunte porque não vou explicar, mas
posso garantir que não tem nada de imoral.
Foi o Zezito do Belo, ou Zezito do Bar ou Zezito do Alto-falante quem deu esse apelido à praça. Ele foi um homem à frente do seu tempo. Fundou o primeiro cinema da cidade, o primeiro serviço de alto-falantes, foi proprietário de um dos primeiros automóveis e, ainda por cima, em pleno sertão baiano, onde há pouco tempo Lampião passara semeando brutalidade e terror, inaugura um bar cujo nome é Café Society, expressão em voga no Jet set mundial.
E, no Café Society, enquanto mastigava caramelos de
café com leite, assistia a meu pai ingerir sua dosezinha de Jurubeba para
forrar o estômago antes da Brahma gelada. Olhava para o outro lado da Avenida e
enxergava o espetacular Hotel Lua, para mim, um dos lugares mais importantes da
cidade, pois, lá, eu sentia a conexão com o mundo, através dos seus ilustres
hóspedes; os viajantes. Lá, também morava Zeca Dantas que, vez por outra,
atravessava a avenida e vinha até o Café Society beber cerveja, abrir o sorriso
largo e a gargalhada estridente brindando com o não menos ilustre, o sobrinho
Nelson Bastos. Zeca Dantas se foi
aos quase 100 anos. Também longevo, Nelson, aos 93, ainda passeia espigado
pelas manhãs euclidenses.
Mas não era só o Hotel Lua que fazia a minha conexão
com o mundo. Zezito, também! Com seu automóvel, seu serviço de alto-falantes e
seu “Night Club”. Isso mesmo, além
do Café Society, ele era dono de um legítimo Night Club em Euclides da Cunha
nos anos 60, carinhosamente chamado de “Naiti”. Para completar, fundou o cinema
que, em seguida, venderia para Jonas Abreu.
Jonas Abreu viveu e morreu para o cinema, para a família e para os amigos, não necessariamente nessa ordem. Foi no cinema dele, que assisti a um clássico do cinema mundial, Hiroshima Mon Amour, do cineasta Francês Alain Resnais. Era na casa dele que todos íamos, às tardes de domingo, ouvir, na moderníssima radiola Zilomag, o som de Miguel Aceves Mejia, Bienvenido Granda e os sucessos do momento com a turma da Jovem Guarda
Certo dia, meu amigo Herder Mendonça convidou-me para,
na sua casa de espetáculos, o saudoso Rock In Rio-Salvador, assistir a um show
de Wanderléa, a musa da Jovem
Guarda. Aos 60 anos, exuberante e superprofissional, ela adentrou ao palco para
se apresentar a uma plateia de uma centena de pessoas. Por um erro estratégico
qualquer, a menor em toda a história da casa. Mesmo assim, cantou como se
estivesse se apresentando num estádio lotado. No meio do show, deslocou-se do
palco, veio até onde eu estava, tomou-me as mãos e cantamos juntos “Uma vez
você falou, que era meu o teu amor...” (trecho da canção Ternura, de Roberto e
Erasmo Carlos). Digo cantamos, mas não foi bem isso. Ela cantava e eu chorava
lágrimas dedicadas àquelas tardes de domingo que Jonas nos proporcionava.
(Texto produzido em 2006)