Entristece-nos a partida de personalidades queridas, nos mobiliza o desaparecimento de um líder cruel, nos assustam as mortes no trânsito em assaltos ou em outras formas de violência, mas só nos toca de fato, a morte aqui ao lado. Aquela que o vizinho aponta o dedo para casa onde está o defunto, onde você assiste o desaparecimento de diferentes gerações até se aproximar da sua. Essa é uma característica das pequenas e até médias cidades do interior onde o informante divide a notícia com o serviço de alto-falantes, hoje instalados em potentes carros de som que desfilam pelas ruas da cidade fazendo com que cada cidadão estique o pescoço aos primeiros acordes da Ave-Maria de Schumman ou da composição de Beethoven, Pour Elise e fique atento para entender o nome de quem partiu.
Nos últimos meses, entre tantas outras pessoas que nos cumprimentaram pela manhã e à tarde ouvimos o anuncio fúnebre, duas especialmente me tocaram. Em outubro, Toinho de Tota. Componente de uma geração pouco mais nova que a minha, sempre conviveu com pessoas mais maduras. Fomos colegas Em Salvador, num quarto da famosa Pensão de Dona Margarida na Rua Senador Costa Pinto à altura do Aflitos.
Vivíamos a década de 60 e um trecho de uma canção de Caetano Veloso lembra o dia em que eu fui embora.
“No dia em que eu vim-me embora
Minha mãe chorava em ai
Minha irmã chorava em ui
E eu nem olhava pra trás
No dia que eu vim-me embora
Não teve nada de mais
Mala de couro forrada com pano forte brim cáqui
Minha vó já quase morta
Minha mãe até a porta
Minha irmã até a rua
E até o porto meu pai
O qual não disse palavra durante todo o caminho
E quando eu me vi sozinho
Vi que não entendia nada
Nem de pro que eu ia indo
Nem dos sonhos que eu sonhava”
Mas eu sabia os sonhos que sonhava. Sonhava descobrir os mundos. Todos os que descobri.
Naquela época, além da poderosa voz do Zezito do alto-falante, também anunciava a morte, as tristes badaladas do sino da Igreja Matriz de Nossa Senhora da Conceição.
Toinho de Tota já tinha um diferencial dos outros meninos da cidade. Era mais arguto, mais adiantado na escola , mais curioso, mais teimoso...características que o acompanhariam por toda vida.
Sem camisa e fazendo pose, Toinho. Ao seu lado ,
Tomezinho, atrás, Pedro Quirino. Agachado de camisa listrada, eu.
Ao fundo Dr. Osvaldo Dantas. A foto é no Jorro
Graduado em Direito, Toinho de Tota virou Dr. Antonio Andrade Campos e voltou à terra natal para exercer uma competente advocacia trabalhista que lhe rendeu bons resultados financeiros e uma penca de desafetos. Entre nós, entretanto, apesar da distância que nos separava, sempre mantivemos o afeto e a cordialidade. Poucos dias antes da sua última viagem, esbarrou comigo na rua e pediu-me que o esperasse por alguns instantes. Voltou com uma garrafa de Whisky raro e disse-me”Rapaz, estava guardando para você”. Foi a última vez que o vi.
Raildo Macedo migrou para São Paulo provavelmente nos anos 50. Lembro de uma curiosidade. Tenho uma tia chamada Railda, hoje viúva do saudoso Toni Lopes . Naquela época, uma vidente teria declarado que quando Raildo voltasse de São Paulo pediria Railda em casamento. Pelo que me consta, nunca houve qualquer aproximação entre ambos, mas isso ficou gravado na minha memória. Cada um constituiu a sua família e Raildo foi ao lado do irmão Romildo, na sua época, provavelmente o mais bem sucedido comerciante de tecidos da região. Há cerca de dois anos, vinha encontrando com Raildo em caminhadas matinais. Sempre brincalhão frequentemente fazia troça com um equivoco ocorrido conosco. Mas estava longe do Raildo que conheci quando retornou de São Paulo. Tinha uma aparência cansada e uma imensa tristeza no olhar que o sorriso franco não conseguia disfarçar. Parecia um perdedor que nunca perdeu o humor.Na semana passada tocaram a “musiquinha” para o Raildo!
Esse dia-a-dia de uma pequena cidade me faz lembrar de que somos mortais. Longe da agitação, da falta de tempo para pensar, para avaliar, para dar a cada coisa o seu devido valor, torço para que a “musiquinha” tão cedo não toque para todos os que compõem esse meu pequeno universo.