Além da agricultura, que ocupa mais de 30% da
superfície útil, a região se beneficia ainda das vantagens do turismo trazido
pelo champanhe. Iniciemos a visita guiada. Na penumbra das galerias
subterrâneas dormem um sono profundo de belas adormecidas, as garrafas do Moet & Chandon. De repente, surgem
efeitos fantásticos de caráter museológico no traçado da geometria. As
instalações, de fazer inveja a qualquer artista de vanguarda, existem
realmente, mas as pinturas arqueológicas das paredes, as supostas abstrações de
Tapiés e as esculturas astecas, são produtos da imaginação. Pensamos nas
operações de alquimia que ali decorrem. Nos segredos que escondem aquelas caves
labirínticas e misteriosas onde se acoitavam os membros da resistência contra a
ocupação nazista. Mãos experientes rodam todos os dias as garrafas, colocadas
em estantes de madeira com o gargalo levemente inclinado para baixo, durante
cinco a seis semanas. “Doucement”. É isto a “remuage”.
Após o envelhecimento num ambiente de humildade e temperatura constantes, os ímpetos e os aromas contidos pela rolha de cortiça fixada por um açaimo metálico, o vinho já “feito” entra nos circuitos comerciais, enfeitado com o rótulo e a gravata que indicam a categoria a que pertence.
De novo, o champanhe a fervilhar nas flutes. Estamos
numa sala acolhedora onde há fotografias de visitantes ilustres que suscitam
alguma curiosidade. Kim Novak e Gary Grant, e em preto e branco, destilam
aquela sedução das estrelas de Hollywood. Tão vedete como este par místico
cinematográfico só a garrafa de Moet & Chandon que assoma no frappé. Mas
voltemos ao princípio, às cepas prodigiosas com as raízes fincadas no solo
calcário desde a época terciária. Champanhe que se preze só admite três castas.
A chardonnay, que lhe fornece frescura e vivacidade, a pinot noir, que lhe
confere o sabor frutado e a pujança, e a pinot meunier da qual recebe o
“arredondamento”. Cumprem-se os ciclos, ano após ano. Apesar dos granizos, das
tempestades e das geadas tardias, a videira floresce e o fruto consegue vingar.
Finalmente, em setembro, quando a uva exposta ao langor do sol estival já
ganhou açúcar, processa-se a vindima manual, executada pelos hornons, que são
equipes de 40 colhedores. Seguem-se as fases da prensagem e da classificação do
vinho.
Infelizmente passamos ao lado, como cão em vinha vindimada, da Catedral de Notre-Dame de Reims. Com a classificação de patrimônio mundial, edificada no início do século XII, é uma obra-prima absoluta do gótico. Aqui foi batizado Clóvis, o rei dos francos, no período das invasões bárbaras. Que pena não pararmos para admirar a célebre escultura do Anjo Sorridente que ornamenta a porta lateral da fachada deste imponente templo. Ficamos alojados no Hotel Royal Champagne onde se abarca uma magnífica panorâmica dos vinhedos de Épernay. Mantém o charme antigo e oferece uma apuradíssima cozinha. Para não falar da soberba adega onde se destacam cerca de duas centenas de bruts, rosés e millésimés excepcionais. Um jantar opíparo, uma orgia de champanhe. Lá fora, o vento rugia furioso, parecendo querer levar tudo pelos ares.
Assemblage. Eis uma palavra sonora que remete para o léxico da produção artística. Significa que os vinhos de cada cru são avaliados, degustados e classificados, para que o chefe da Maison e seus enólogos possam estabelecer as proporções da mistura com as reservas dos anos anteriores. Quanto mais extenso for o leque de escolhas, melhor se poderão combinar e harmonizar as múltiplas expressões das uvas. Na perícia criativa da Assemblage reside o segredo dos grandes champanhes. Depois de selecionadas, as cuvées são postas nas caves para que o tempo exerça a sua ação de demiurgo. As leveduras que contribuíram para a efervescência ou prise de mousse libertam substâncias aromáticas. Esta segunda fermentação é vital na elaboração do champanhe. Deste “vinho de fresca espuma que é a imagem brilhante dos franceses”, como escreveu o iluminado Voltaire com alguma petulância.
Debaixo de uma chuva impertinente, visitamos a abadia de Hautvillers, fundada por S.
Nivard. Diz a lenda que uma pomba profética lhe indicou o lugar onde devia
fundar o mosteiro. Na igreja, decorada com pinturas setecentistas e
oitocentistas, admiramos a capela de Santa Helena e o túmulo de Don Pierre
Pérignon, o célebre monge envolvido em diversas experiências que seriam
determinantes no percurso do champanhe. Durante o almoço no Petit Trianon, juntamente com as
divinais iguarias, tivemos oportunidade de apreciar várias categorias de
champanhe Moet & Chandon, evidentemente.
Sob a bandeira desta Maison, forjou-se um vinho com
dois séculos e meio de história. Tudo começou com Claude Moet, um negociante de
vinhos oriundo de uma família da região de
Épernay.
Assiste-se a um progresso no domínio comercial com Jean-Marie Rémy, neto do fundador que abriu caminho nos mercados europeus. A casa passa a chamar-se Moet & Chandon quando este homem empreendedor entregou em 1832 a administração da firma ao filho Victor Moet e ao genro Pierre-Gabriel Chandon. Servido nas ceias galantes de Louis XV e da poderosa Marquesa de Pompadour, um monumento de mulher, entre cabeleiras empoadas, frous-frous de veludos e rendas, o champanhe conquistou mais tarde Josefina e Napoleão, que nas suas habituais expedições pela estrada de Reims costumavam visitar o amigo Jean-Marie Rémy. Para selar essa ligação, a título de homenagem, nasceu o Brut Imperial. Elogiado por escritores como Goethe e Diderot, o champanhe animou os salões literários da madame Stael e foi consumido sem moderação nos anos loucos e trepidantes da Belle Époque.
Atualmente, por razões lógicas, o Moet & Chandon introduziu-se nos ambientes da moda internacional. Integrado no grupo Moet Henessey-Louis Vuitton que possui algumas das mais famosas marcas de roupa, acessórios e perfumes como Dior, Guerlain, Lacroix ou Givenchy, é neste momento líder mundial do champanhe. Frívola, cintilante e efêmera, a moda condiz lindamente com as bolhas. Meret Oppenhein, artista e musa do movimento surrealista, ousou aparecer com uns esquisitos brincos que eram rolhas de champanhe. O revivalismo deste motivo estético reapareceu em 1980 com os acessórios concebidos por Stephen Jones, exatamente para um Don Pérignon Millésimé