Qualquer hora, quando eu me sentir menos assim.
Menos o quê?
Ah! Preterida. Preterida?
Pois é. Bem que um "f" nesta palavra faria toda a diferença...
Esforço
Eu me esforço bastante para ser assim... Como se diz? Acho que ajustada. A-jus-ta-da. Será mesmo? Devo ter educação, boas maneiras, sorrir, falar baixo, fazer de conta que não vejo tudo o que vejo, que não ouço tudo o que ouço, que não sei nada de tudo quanto eu sempre soube, que não ligo, que não dói, que não sinto. Enfim, faz de conta que não sou eu, que nem sei de mim. Posso mesmo ser este papel que decora a parede, onde tem um prego fincado bem fundo, para que ali se pendure um aviso: FECHADO.
Um PapelE meus olhos não fugiam do
pequeno papel dobrado deitado ao chão lado a lado ao cigarro que alguém fumou
até além do fim. E deu-me tamanha vontade de desdobrar e de ler.
Fiquei perguntando aos tais botões, que devo ter de meus, se não havia alguma
coisa ali escrita, e que a água lavaria tal e qual batismo místico, e que algum
gari varreria, tal e qual fosse lixo, e que lixo bem era, certamente. E se
houvesse ali algo escrito? Pudera! Que houvesse por certo algum recado,
bilhete, endereço, nota, quem sabe, um abraço uma dedicatória, uma perda... Ah,
quantas dessas notas irrecuperáveis não se desperdiçam ao longo da vida, e que
uma chuva não leva, e que um gari não varre e que eu não juntaria por
comodidade, por inspiração, por quereres de mistérios que gosto de inventar
assim. Por nada.
Contra o fundo azul
É tão simplesmente bonito sentir
apenas as cores e seu impacto sobre o fundo dos olhos. O azul purificado de um
dia luminoso e o rosa matizado de branco e de maravilha, mais o escuro dos
troncos e... pronto! Irresistível. É preciso fotografar e torcer pela
fidelidade da lente que introduz a eternidade do efêmero, que prolonga o prazer
de perceber as coisas assim, por nada, por puro acaso. Na paisagem, na asa de
um inseto, no reflexo fugidio provocado pelo vidro de uma janela que bate com o
vento, nesses pequenos nadas que não contam, mas que humildemente compõe uma
parte tão pouco perceptível da vida.
Contornar é ótimo.
Pois é. O gato subiu no telhado, me engana que eu gosto, eu não tinha escolha,
nem alternativa, eu não queria, mas. Manda quem pode, obedece quem tem juízo,
ou quem precisa, ou mesmo quem quer, mas não assume. Tirar o corpo fora é
possível, sim, mas sempre se deixa alguma coisa na reta, contando com fato de
que os farrapos com os quais acobertamos nossas desculpas não deem margem a
boatos do tipo que anuncia, por exemplo, a nudez do rei. Ah! Como a linguagem
permite essas dubiedades, e como esses discursos têm se tornado assombrosos, ao
menos do ponto de vista das coisas ditas republicanas.
É notório o quanto todos têm se tornado sutilmente respeitosos, e o quanto a
coerência anda em alta. Difícil é engolir e digerir os sapos & cobras que
nos são servidos nesses banquetes de delicadeza, nessas considerações
alinhavadas com tanta doçura. Eu me sinto lisonjeada por merecer tantas satisfações.
Eu até tenho conseguido fingir bem direitinho que acredito piamente em tudo
quanto me dizem. Alguma dúvida?
Convívio
Quase sempre acabamos
transformando uma conversa numa disputa, depois numa briga, depois num
mal-estar que perdura por dias, até que cedemos novamente. Ruim por perto, ruim
também quando longe, porque sinto falta de alguma coisa nele que nem sei
direito o que poderia ser. Nunca soube e acho que nunca vou saber. Ele também,
eu acho. Presumo que soframos os dois como doidos cada vez que acontece uma
briga que nos coloca um de cada lado. Contudo, de longe, continuamos sempre a
nos espreitar reciprocamente, até que, devagar, um poupando o ego do outro,
cuidadosamente, nos reaproximamos utilizando até uma linguagem cerimoniosa.
Depois cedemos, para lamber feridas e recompor vaidades.
Eles nasceram assim. Tão perto,
que me atentaram. Então fotografei e documentei os cogumelos do Parque da
Redenção. Tão perto! Nasceram praticamente colados! Este parque é cheio desses
mistérios, de coisas e pessoas muito estranhas com as quais a gente se depara
sem esperar. É um lugar onde os imponderáveis abundam... — Que frase mais pedante,
céus! — Só que me deu vontade de escrever assim, bem assim, por desaforo,
por derrisão, para mexer com a paciência do leitor ocasional, que vem aqui sem
saber por que, e depara-se com essas manifestações tão inesperadas. Na falta de
coisa melhor, nada como sair em busca de mistérios. Nem que sejam assim, bem
singelos, simplórios ou, melhor dizendo, à maneira dos pernósticos: prosaicos.
Pensei na hora em arrancá-los, tomar posse deles, sentir nas mãos seu estofo
macio, que lembra a borracha que apaga o grafite. Pensei na hora em cheirá-los,
e lembrar-se daquele leve odor de mofo de livros, que eu amo sentir. Pensei na
hora em comê-los talvez, mas deu-me dó separá-los, desgrudá-los um do outro, só
pela vaidade de ser mais forte, e de dispor de poder para tanto. Ponderei essas
coisas todas. Meu cérebro é cheio dessas bobagens inconfessáveis, que só não
são pura doidice pela imensa elasticidade do conceito de literatura. Qualquer
bobagem que a gente escreva pode ser literatura. A pós-modernidade é tolerante,
e as bienais proliferam. Por que não proliferar então os cogumelos geminados?
Por que não fotografá-los? Afinal, são bonitos e têm a tal da atitude. Atitude? Sei lá. Deve ser algo
assim o que eles têm.
Cidades
Cada uma sendo do jeito que é. É
certo que se pode olhar para elas a partir de dados que dizem tudo: pode-se
saber quantos moram nela, o que fazem, quanto ganham, se há carros, aeroportos,
se há rios, se há mares, se há velhos, jovens, adultos, se os há, e quantos há
de cada um. Mas nada fala tanto da cidade quanto nosso olhar de ver, quando se
aprende a atentar, não para as coisas mensuráveis e quantificáveis, mas para
esses dados avulsos, essas coisas soltas, esses pequenos grandes achados que se
inscrevem em muros, paredes, calçadas, e que são feito tatuagens. Dessas coisas
únicas, que não se repetem: marcas individuais que definem uma cidade dentre
tantas e tantas outras.
Fluidos
Com a primeira semivogal
tonalizada, como deve ser. Fluidos. Lembro-me de quando ouvi pela primeira vez
esta palavra aplicada por um espiritista dado a discursos sobre as tais
estranhas forças que nos cercam. Tudo é cheio de forças — dizia
ele — de fluidos, de emanações, de energias que se deslocam pelo
espaço, mesmo estando fora do espaço como se entende espaço. Contingentes,
imprecisas, sempre refugindo ao alcance de nossos parcos sentidos. Criança
ainda, aquilo impressionou-me profundamente, acossou-me a imaginação, e fiquei
a me representar os tais fluidos pelo espaço, à deriva, formando estranhos
desenhos ainda mais leves e sutis que aqueles que eu costumava flagrar nas
nuvens. Dei-me conta de que imaginava os tais fluidos do espiritista como algo
assim: uma sutilíssima fumaça que desenha formas abstratas pela paisagem,
irradiando luares, vibrações, assombros. Pensamento consolador. Como qualquer
verdade que se oponha a esse cotidiano prosaico que nos esmaga com sua retórica
precisa e seca.
Frases Feitas
Quando se diz que se faz de
tudo, ou qualquer coisa, ou quando se diz que quanto mais se reza mais
assombração aparece; e quando o Roque diz que tem dia que é noite, penso em
todas as frases feitas que tenho feito e desfeito ultimamente, rosário desfiado
de predições que se debulha, tipo dia de muito véspera de pouco, mais vale não
ter que ter e perder, e todas essas outras bobagens, miudezas, coisas pequenas,
mas, verdade é, afinal de contas, que manda quem pode obedece quem quer.
Ausências & Presenças
Talvez não seja exatamente o que
pensamos uma ausência. Há outros onipresentes a quem designamos um exílio emocional
tão determinante que jamais se fazem presentes e, ainda que estejam por perto,
sua ausência é sempre absoluta. Nascem mortos, ou se morrem, ou os matamos nós,
dolosa ou culposamente. Outros dentre os outros são sempre esquecidos, porque
nunca chegaram a ser lembrados, a não ser de modo fugidio e, não fossem agendas
e lembretes, não tomavam existência nem corporeidade nunca. Até que se
desejaria não os esquecer, até que se desejaria, por delicadeza ou
complacência, lembrá-los mais vezes, só que, ainda assim, nos fogem, nos
escapam, e nada deles deixa rastro de memória que nossa sensibilidade possa
capturar, indiferentes que são. Muito iguais, nunca chegaram a tomar corpo e
assim ficaram, para sempre fragmentados. Outros há, todavia, cuja presença é tão
intensa que já fazem parte de nós, presentificam-se em nosso interior, ficam
sempre ali e de tal forma, e com tamanha persistência, que viram um pouco
outros eus da gente também. E, no fim, nos acostumamos com suas presenças que
ausência alguma é capaz de esmorecer. Deixam de ser outro e passam a ser um
pouco a gente mesmo. Ou a gente mesmo vira esse outro lá por dentro. O que não
sei dizer é se isso é assim mesmo ou só impressão minha.
E me virás como? Singular ou todo cheio de plurais, a desafiar-me as mágoas, como quem espreita minha intimidade? Não sei. Apenas estarei lá, fugindo ao óbvio que nos ameaça, recomeçando o final, desde o princípio, quando éramos apenas o verbo. Este, uma vez carne, conheceu então a dor e o silêncio.
Descobri que gosto de
me reler de vez em quando. Estava folheando essas páginas, brincando com o cursor
para cima e para baixo, e me relia. Tentava lembrar-me de como era eu mesma
antes de ontem. De como os dias passam e do quanto de nós fica pelas passagens.
E pensava nessas mesmas passagens, que são largas, estreitas, escuras, claras,
de todo jeito, e que também são lentas, podem ser rápidas, por vezes
tormentosas, a vida levando a gente de arrasto. Passa, amanhece, os arranhões
dão conta de que ontem foi ontem, e que ontens talvez se escondam nos nossos
amanhãs. A vida deve ser feita de corredores e de relógios, de tensões e de
acontecimentos. O que não se sabe bem é quando é para sempre ou para nunca
mais.
Relatividade
Toda nova racionalidade traz
consigo uma nova estética. O Bom, o Justo e o Belo, tão clássicos, ensejam hoje
grandes discussões, relativizam-se, descompartimentam-se. Percebem-se
fragmentos de um real que se abstrai. Tudo é muito relativo. Sei. Inclusive
esta relatividade toda.