Eu não falo nem escrevo, mas sei que você escuta e que lê a folha em branco, letra por letra. Mas, como não falei, você pode fazer de conta que não me ouviu nem me leu. Então sorrimos. No princípio é ruim fingir, mas, como a maioria das pessoas aprende a fingir, e, com tantos modelos em que se espelhar, todos vêm fingindo cada vez melhor, a coisa toda prossegue e propaga-se. São as concessões. As discussões são evitadas, as desinteligências não acontecem. Tudo em nome da civilidade, de um padrão de conduta que me dá arrepios, mas do qual penso, às vezes, que não vou conseguir mais escapar. Isso me assusta. Escrever para os outros e não mais para mim. Censurar-me. Têm sido melhor calar.
Tudo por causa dessa inquisição que nos obriga a
contornar aqui, enfeitar ali, inventar metáforas, disfarçar frases, consertar
erros de perspectiva. E eu, que gosto de me soltar, quando vejo já escrevi
horrores. Também, quando falava livremente, quando me dava conta, já havia dito
outros tantos horrores. Coisas feias, mas sinceras. Só que acabou sendo inútil.
Então, fui me esgueirando, e me abrigando na sombra do silêncio. Escrever,
escrevo. Releio, gosto, reconheço-me
ali, em cada palavra... Mas na hora de mostrar, desisto. Como se um crítico se
houvesse instalado no meu interior. Só que não se trata da minha consciência. É
algo alheio, uma espécie de censura. Uma sensação ameaçadora, um tipo
repugnante de vergonha, porque é um envergonhar-se de si, no que se tem de
verdade. São as regras. Os mandamentos do bem, da correção. É sabido que essas
regras se infiltram por nossas ações. Por que seria diferente comigo?
E não é só na escrita. É ainda na fala, mesmo naquela mais íntima. Que já fui de dizer mais coisas, de me mostrar, de não ter receio de me colocar. Essa retração, a princípio, foi lenta, imperceptível, foi se efetuando aos poucos. Até que silenciei, ou pelo menos boa parte de mim silenciou. Percebi que, aparentemente de uma hora para outra, as pessoas se tornaram ultracorretas. Até você, você e você também. Inclusive. Mesmo gente que conheço faz tempo resolveu ajustar-se a esse novo mundo onde impera a bondade. Pessoas que se comportam como se jamais houvessem tido maus pensamentos. São todos bem intencionados, e insistem que sempre foram assim. Não discriminam também, e afirmam que nunca discriminaram. Então, comecei a pensar sobre o que escrevia e sobre o que pensava e, secretamente, me cresceu uma enorme culpa. Simplesmente porque não consigo pensar sempre em termos do bem. Penso mal, desconfio, duvido de boas intenções, não acredito em tudo que ouço, nem levo a sério todos os discursos que sou obrigada a ouvir, ainda que não queira, porque estão em toda parte. Isso quando não escrevo coisas terríveis que vocês nunca lerão, que não sou também tão idiota a ponto de mostrar.
Meus
pensamentos são inconfessáveis, e minha escrita, impublicável.
Não sei se isso é efeito de maldade ou de velhice, mas a descrença me corrói.
Esse mundo cheio de boas intenções, de gente politicamente correta, que só faz
o bem, que não pensa em comer o fígado do outro nem em quebrar o barraco.
Parece que o mundo se dividiu: os bons e os maus. Sem meio termo. Os maus são
os outros. Eles. Nunca somos nós. Não sei é como fica gente que nem eu, que não
é assim tão do mal, mas que absolutamente não é, nem nunca quis ser, do time
dos bons e dos santos. Como fica gente assim? Eu me achava normal, mas agora
descobri que sou olhada com certo horror até mesmo quando digo palavrões. Mas
eu sempre disse! E explico ainda, quando mando alguém para aquele lugar
fedorento e insalubre, que o “a” é com crase; e quando recomendo a alguém
aquela prática, digo que o “u” da palavrinha monossilábica não tem e, aliás,
nunca teve, o acento agudo. Mas nem escrever dá mais... E eu escrevia certinho
cada um dos palavrões, todos eles bem corretamente, com acentos, inclusive, ou
sem, quando não tinham. Isso porque o fato de se tratarem de palavrões não me
autorizava a maltratá-los, fosse na ortografia, fosse na sintaxe.
O mais triste é ver mudados até os cínicos de outrora.
Aqueles todos com quem eu já conversei abertamente sobre os meus piores
pensamentos. Não é por menos que ninguém mais recorre a confessionários. Acho que não existem mais pecados. Devo ter
sobrado eu de pecadora. Então, à vista de tudo isso, só me resta escrever menos
e, em nome da paz social e da boa convivência, tornar-me cínica. Nem é ironia
mais, que nunca gostei muito de ironizar, uma vez que é um subterfúgio bastante
autocomplacente. É mesmo cinismo, dizer o que não se pensa, usar uma palavra
pela outra ou recorrer a metáforas e metonímias arriscadas. Nesse mundo onde os
desaforos são apenas mal interpretados.
De início, parece que são apenas pequenas concessões. A gente emprega uma palavra pela outra, evita dizer, embora saiba bem o que pensa e o que cala. Trocamos os nomes e, a seguir, as coisas nomeadas reconfiguram-se. Mais um pouco, e vamos nós todos mudando com a linguagem, vamos sofrendo os efeitos desta inquisição e, de palavra em palavra, ficamos assim, todos santos, que não dizem mais nem mesmo “nomes feios”, que “palavrão”, com certeza, já se tornou uma expressão a ser cuidadosamente evitada.
Começa-se com a palavra. Daí à atitude é um passo. E
eu? Francamente nem sei bem o que escrever. E dizer, já faz tempo também que
não digo muita coisa. Pensando bem, ainda acredito que consigo pensar mal,
duvidar, descrer. Mas, com certeza, talvez passe. Um dia, quem sabe, eu me
acorde transformada numa boa pessoa. Sem revoltas, sem raivas, sem depressões,
acreditando em tudo o que é dito ou que está escrito nas bulas de remédio e nos
livros, nos códigos, nos discursos dos jornais, da TV, nas revistas, nele, em
você aqui, em você ali, e ainda em todas essas pessoas que só querem o meu bem
e que insistem em dizer que sabem também o que é melhor para mim. Certamente
neste dia eu acreditarei no mundo, e começarei a duvidar de mim. Daí, vou ver
se leio bem isto aqui. Para tentar me lembrar que, um dia, eu já fui diferente.
Nem do bem, nem do mal, variável, incerta, pertencente a esses meios tons de todas as cores, capaz de
extremos, de chorar quando deveria sorrir, e de morrer de rir quando deveria
chorar e me conter.
Por enquanto, parece, eu ainda sou eu. Mas já tenho um pouco de saudade de mim, do tempo em que ainda podia ser eu mesma com mais força, bem mais alto, e com todas as palavras, sem estas tais... reticências.