Ele não a começou. Ele foi evidentemente pego de surpresa quando ela começou – como, aliás, quase todo mundo.
Sua resposta imediata foi pensar, com razão, que o processo representava grande perigo para a já abalada ordem geopolítica da região. Os Estados Unidos procuraram, de todas as maneiras possíveis, limitar o dano, manter sua própria posição e restaurar a “ordem”. Ninguém pode afirmar que tiveram grande sucesso. A cada dia, a situação torna-se mais incerta e fora do controle de Washington.
Barack Obama é, por convincção e personalidade, a quinta-essência do centrismo. Ele busca diálogo e compromisso entre “extremos”. Age com a devida reflexão, e tomas as grandes decisões com prudência. É partidário de mudanças lentas e ordenadas – que não ameacem as bases do sistema do qual ele é não apenas parte, mas a figura central e o mais poderoso ator.
Porém, ele encontra-se, hoje, constrangido de todos os lados para o exercício de seu papel. Ainda assim, continua tentando jogá-lo. Diz, obviamente, para si mesmo: que mais eu poderia fazer? O resultado é que outros atores (inclusive os que foram seus aliados subaltermos) desafiam-no aberta, desavergonhada e repetidamente – o que reduz ainda mais seu poder.
Benyamin
Netanyahu, o premiê israelense, fala ao Congresso dos EUA, que
aplaude seus absurdos interesseiros com entusiasmo e arrebatamento – como se
ele fosse em George Washingto reencarnado. Foi um tapa na cara de Obama, mesmo
que o presidente já tivesse, ao falar ao lobby pró-israelense AIPAC, retirado
na prática sua tímida tentaiva de propor a volta às fronteiras que Israel e os
palestinos mantinham em 1967, como base para a paz.
O governo saudita deixou muito clara que fará tudo a
seu alcance para defender os regimes atuais do mundo árabe. Está irritadíssimo
com as concessões ocasionais de Obama à linguagem dos “direitos humanos”. O governo do Paquistão está avisando muito
claramente a Obama que, se os EUA tentarem enquadrá-lo com dureza, encontrará
na China uma amizade mais firme. Os governos russo, chinês e sul-africano
lembraram sem reservas que, se Washington tentar obter decisões do Conselho de
Segurança da ONU contra a Síria, não terá seu apoio. Provavelmente, sequer
reunirá maioria de votos – um eco do fracsso de Bush, ao tentar obter, em 2003,
uma segunda resolução sobre o Iraque. No Afganistão, o presidente Karzai está reivindicando da OTAN o fim
dos ataques com aviões não-tripulados. E o Pentágono sofre pressões para deixar
o país, onde sua aventura tornou-se muito cara.
Para que não se enxergue a fraqueza apenas no Oriente Médio, basta espiar Honduras. Os Estados Unidos virtualmente endossaram o golpe contra o ex-presidente Zelaya. Em consequência, Honduras foi suspensa da Organização dos Estados Americanos (OEA). Washington tem batalhado duro para restaurar a participação do aliado, alegando que um novo presidente foi formalmente eleito. Os governos latino-americanos resistiram, porque Zelaia, o chefe de Estado deposto, não era autorizado a regressar — com a retirada de todos os processos legais que o ameaçavam.
O que aconteceu em seguida? A Colômbia (supostamente o principal aliado dos EUA na América Latina) e a Venezuela (supostamente o satã dos EUA na região) acertaram-se e, juntas, negociaram com o governo hondurenho o retorno – nas condições definidas por Zelaya. A secretária de Estado Hillary Clinton sorriu amarelo, diante da derrota da diplomacia de Washington.
Por fim, Obama está em apuros com o Congresso dos
Estados Unidos em torno da guerra na
Líbia. A Lei dos Poderes de Guerra autoriza o presidente a comprometer
tropas no país apenas por 60 dias, após os quais é necessária autorização
explícita do Legislativo. Dois meses passaram, e não houve decisão do
Congresso. A continuidade da ação é claramente ilegal, mas Obama é incapaz de
obter o endosso. Ainda assim, permanece comprometido com a guerra e o
envolvimento norte-americano pode crescer. Ou seja: ele pode fazer o mal, mas
não o bem.
Enquanto isso, concentra-se em sua reeleição. Tem boas chances de obtê-la. Os republicamos estão caminhando cada vez mais para a direita e cometendo graves exageros políticos. Mas uma vez reconduzido, o presidente dos EUA terá ainda menos poder que hoje. O mundo está mudando rapidamente. Num tempo de tantas incertezas e atores imprevisíveis, os Estados Undios estão se convertendo no valentão mais perigoso do planeta.