Vidabrasil circula em Salvador, Espírito Santo, Belo Horizonte, Brasília, Rio de Janeiro e São Paulo Edição Nº: 321
Data:
30/12/2002
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E agora, como se fazem os bebes
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Lançamentos, espetáculos, viagens, inaugurações e programação em geral para o réveillondesfilam nas linhas da colunista
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A Vasp continua em céu de brigadeiro e é a única companhia aérea brasileira fora do “vermelhão”
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O governo FHC chega ao fim e o seu prepotente ministro Sibut Gomidge volta ao desemprego
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Tempo de comemorar
» Boca Miuda
O senador eleito Magno Malta já fala em ser presidente da República com o apoio dos evangélicos
Entrevista

Advogado, promotor público, vereador, deputado federal, presidente da Telebrás, senador por duas vezes, vice-presidente do Congresso Nacional onde foi líder do governo Collor e atualmente governador do Espírito Santo, um dos que não fizeram opção pela reeleição, ao apagar das luzes da sua administração, José Ignácio Ferreira concede entrevista exclusiva à VidaBrasil onde faz um balanço dos quatro anos que pilotou o Estado.  
 
– Adversários dizem que o senhor encontrou um Estado sucateado e está entregando um Estado sucateado e meio...  
– Eu nem sei onde termina a desinformação e onde começa a má fé! Nós saneamos as contas públicas. E sem tomar empréstimos, sem gerar precatórios, sem vender patrimônio, sem aumentar impostos. Posso rebater, começando pelo resultado primário, aquela continha básica que toda dona de casa conhece: as receitas menos as despesas, com exclusão dos juros. Em 1997, a conta era de R$ 484 milhões negativos; em 98, último do governo anterior, passou para R$ 571 milhões negativos (veja só, isto significava quase seis receitas mensais líquidas de ICMS, que, à época, somava R$ 100 milhões mensais). Em 99, no primeiro ano do atual governo, fizemos um esforço enorme e reduzimos esse resultado primário para R$ 188 milhões, mas ainda negativos. No ano seguinte, diminuímos para R$ 10 milhões ainda negativos, mas já quase no nível da superfície. Em 2001, elevamos o patamar para mais de R$ 150 milhões positivos e devemos fechar agora com R$ 212 milhões positivos. Revertemos um quadro de resultados primários negativos para positivos, em milhões de reais. Tudo somado, dá um resultado de R$ 721 milhões em três anos (R$ 571 milhões + 150 milhões).  
– Mesmo assim o senhor enfrenta problemas nas contas...  
– Claro! Mesmo com resultado primário positivo, o governo atual enfrenta dificuldades, por exemplo, no pagamento do funcionalismo. Mas isso se explica porque com os superávits, tivemos que cobrir déficits do período anterior, que parcelamos e estamos pagando, já quase no finzinho.  
– A equipe de transição do governador eleito afirma que o governo atual dobrou a dívida pública do Estado.  
– Não é verdade. Não foi tomado um só real de empréstimo. Encontramos uma dívida pública de R$ 2,11 bilhões. Pagamos R$ 873 milhões. As correções monetária e cambial elevaram o estoque da dívida para R$ 3,5 bilhões. Esse crescimento da dívida pública foi meramente vegetativo. Nós pagamos quase 1/3 dela, que, mesmo assim, subiu, por imposição de contratos feitos em outros governos. Agimos dentro dos espaços da Lei de Responsabilidade Fiscal e do Programa de Saneamento Fiscal contratado com a União, com uma eficácia que é atestada documentalmente pela Secretaria do Tesouro Nacional. Cumprimos todas as metas, até com folgas.  
– Mas o governador eleito...  
– Por favor, um momento só... A dívida atribuída a nós, da ordem de R$ 400 milhões, do INSS, se deve aos compromissos não resgatados por outras administrações que a autarquia exigiu, no ano de 2000, do atual governo capixaba, sob pena de inscrevê-lo no Cadin (o Cadastro de Inadimplentes da União), com o que os repasses de verbas federais para o Espírito Santo seriam suspensos. Mesmo discordando, não nos sobrou alternativa a não ser admitir o parcelamento da dívida e entrar com recurso na esfera competente. A confusão planejada pela oposição a respeito das contas é para embaçar a verdade: não se gerou qualquer precatório, não se alienou qualquer patrimônio, não se endividou o Estado com empréstimos e não se aumentaram os impostos. Pelo contrário, até se reduziram setorialmente. E, principalmente, criamos um equilíbrio fiscal que fez o Tesouro Nacional contemplar nossa administração com um atestado de pleno cumprimento do Ajuste Fiscal contratado com a União.  
– Questiona-se muito, também, os benefícios fiscais concedidos pelo seu governo. O que o senhor tem a dizer a esse respeito?  
– O visível aumento da competitividade das empresas capixabas é o melhor testemunho sobre o acerto da medida. Os benefícios envolvendo ICMS concedidos pelo atual governo foram pactuados por setores da economia, visando aumentar a competitividade das empresas capixabas diante da concorrência nacional. Confecções, pecuária, mármore e granito etc. Além disso, esses setores se comprometem a aumentar em, no mínimo, dez por cento por ano o volume de recolhimento de impostos. Caso isso não ocorra, a Secretaria da Fazenda revoga o benefício.  
Acertamos na decisão. Isso se confirma não só pelo crescimento da arrecadação tributária, materializando o expressivo aumento de 21% da receita de ICMS em 2001, como pela atitude de outros Estados brasileiros, como São Paulo, que copiaram a medida. Um grupo de trabalho composto por representantes da Procuradoria Geral do Estado, Secretaria de Planejamento, Secretaria da Fazenda e Assembléia Legislativa analisa processos protocolados há anos, certificando-se dos desejáveis efeitos desses benefícios.  
– E a privatização do Banestes, governador... É mesmo tão necessária assim?  
– O Banco consumiu mais de R$ 170 milhões só neste governo. Dinheiro que falta à saúde, educação e segurança, o Estado usa para amortizar a dívida do saneamento financeiro do Banco.  
O processo de privatização do Banestes foi iniciado no governo anterior. Vem sendo rigorosamente acompanhado pelo Banco Central, que expressou sua posição à comunidade financeira reunida em São Paulo no dia 21 de outubro último.  
A administração que nos precedeu contraiu uma dívida com o governo federal no valor de R$ 435 milhões, em 1998, para evitar a intervenção no banco. Assumiu expressamente o compromisso de sanear o banco para privatizá-lo antes que suas condições voltassem a se deteriorar. Nós fomos obrigados a injetar R$ 170 milhões na amortização da dívida, cujo saldo, ainda assim, se elevou a R$ 597 milhões, num efeito de bola de neve. Gastamos mensalmente em torno de R$ 5 milhões com o pagamento dessa dívida, tirando esses recursos dos investimentos que devem beneficiar o contexto global da sociedade e não apenas uma corporação.  
– Por que, então, tanta crítica?  
– Espírito corporativista e oportunismo político, que não encobrem as razões claras que determinaram a privatização do Banestes.  
– Num plano mais amplo, se diz que o governo atual não cumpriu as metas de ajuste de contas públicas. É verdade?  
– Como não? Nós cumprimos nosso compromisso de ajuste nas contas públicas e isso é atestado pela Secretaria do Tesouro Nacional, que é uma espécie de FMI dos Estados. Ela fiscaliza e atesta formalmente o cumprimento ou não de metas fiscais, dentro de um programa contratado com a União. Foram exigências draconianas que o Estado teve que cumprir: por exemplo, a meta da despesa com pessoal fixada em 60% da receita corrente líquida. O Estado cumpriu com folga. Quando chegamos ao governo, a relação entre a folha de pessoal e a receita líquida disponível era de 80%. Incluindo-se a receita do Fundap, essa relação caiu para 61%. Hoje apresenta 47,09%. A imprensa nacional noticia que em Minas – que é um grande Estado do país – essa relação está em 73%. Se isto que fizemos aqui não é saneamento de conta pública, então eu não sei mais o que é! Por outro lado, na meta de resultado primário superavitário de R$ 53 milhões, atingimos quase seis vezes mais, alcançando os R$ 274 milhões. Para os investimentos, a meta fixada pela Secretaria do Tesouro Nacional foi duríssima: 6,4% da receita líquida real anual. Cumprimos essa meta draconiana, com investimentos de 5,76%.  
– Quer dizer então que essa Lei de Responsabilidade Fiscal freia o desenvolvimento dos Estados?  
– Aí é uma questão contratual do Estado com a União. Um programa de metas de saneamento fiscal foi celebrado antes de chegarmos ao governo. A Lei de Responsabilidade Fiscal veio depois. Aliás, ela é, em tese, uma das melhores coisas que aconteceram na administração pública da União, estados e municípios. Em síntese, quer é que o Estado caiba em si mesmo. Não gaste mais do que arrecada. Só que essa lei veio no meio do quatriênio atual. E coube aos governos se adaptarem a ela, com o carro já andando. As dívidas recebidas do governo anterior têm que ser pagas, sem poder ser repassadas dívidas para o governo futuro. Isto acarreta um ônus enorme para os atuais governos. Como se está vendo, quase todos os Estados vivem graves dificuldades.  
– Que governos estão penalizados com essa Lei de Responsabilidade Fiscal?  
– Repito que essa é uma lei muito boa. As queixas são generalizadas entre os governadores, não quanto à lei em si, mas quanto ao fato de ela ter produzido mandatos-tampão, em prejuízo das gestões atuais. Veja a Benedita, no Rio, com todo aquele petróleo; o Itamar, em Minas. Estados importantes, sem recursos para o 13º mês e para os meses finais do ano. Aqui, estamos pagando outubro e já pagamos o 13º mês, com um esforço enorme. Mas estamos penando, como os demais Estados.  
– Fale sobre a Lei Kandir. O que há de tão prejudicial nela?  
– É certo não se exportar imposto. Porque onera o exportador e reduz competitividade no mercado externo. Mas há uma colisão entre a filosofia da Lei Kandir e a característica de não cumulatividade do ICMS. O último Estado na cadeia produtiva fica com o “mico” da compensação do tributo ao exportador, pois não há o que compensar, já que existe a desoneração da exportação. Espírito Santo, Maranhão e Pará são exemplos dessa perversidade. Quanto mais produzem e exportam, mais crescem seus débitos tributários com os exportadores. É uma grande injustiça isso! Quando alguém quer implantar-se no Estado para produzir e exportar, significa que as dívidas estaduais vão crescer com as exportações. Isto é um contra-senso, porque o que é bom para a União não pode ser ruim para o Estado que exporta. Tenho lutado muito contra isto!  
– Mas a CST agora passou a produzir para o mercado interno. Isso significa ICMS para o Espírito Santo!  
– Nem um real de ICMS vai para o erário estadual. A CST é uma grande empresa, bem administrada, tem quadros altamente qualificados. Ela segue as regras, que, porém, são absurdas, surrealistas. Todo imposto gerado pela circulação das bobinas no mercado interno vai ser compensado com os tributos pagos pela empresa na compra de insumos. Já há um enorme crédito acumulado contra o Espírito Santo. A culpa não é da CST, nem de quem mais produz e exporta. Mas é preciso acabar com essa injustiça! Talvez a solução esteja na desoneração de toda a cadeia produtiva destinada à exportação.  
– Governador, a verdade é que o senhor enfrentou muitas dificuldades. Qual o saldo positivo nas realizações? Saúde, por exemplo...  
– Construímos e entregamos à população o maior hospital do Estado: o Hospital Geral e Infantil de Vila Velha. Reformamos, ampliamos e reequipamos todos os hospitais da rede pública do Estado. Todos. O Hospital São Lucas é considerado hoje o melhor do Estado em trauma. Conheço médicos que registram junto aos seus documentos que “em caso de acidente traumático, levem-me para o Hospital São Lucas”. Porque ali estão os melhores equipamentos e as melhores equipes médicas (o São Lucas é o único hospital do Estado que possui tomógrafo e realiza cirurgias de alta complexidade). O Hospital Dório Silva é considerado referência nacional no tratamento de vítimas de queimaduras, recebendo homenagens do Ministério da Saúde. Promovemos também o aumento de 30% na oferta de leitos nos hospitais do Estado. Além disso, alcançamos aumento de 30% na oferta de leitos e de 134% na oferta de serviços para urgência e emergências. E mais, crescimento de 44% na oferta de leitos de UTI adulto e de 114% na UTI neonatal. Devo lembrar também a criação da Central de Regulação de Vagas de Leitos Hospitalares, funcionando 24 horas por dia, gerenciando 1.732 leitos de 17 hospitais, garantindo o acesso democratizado a todos os usuários...  
– E a Educação?  
– Um momento, por favor, preciso falar mais da Saúde... Pilotamos investimentos superiores a R$ 40 milhões que aumentaram e qualificaram a capacidade de atendimento em todo o Espírito Santo. Em 3 anos, dobramos o número de prontos-socorros. Promovemos a qualificação de 3.200 auxiliares de enfermagem, em parceria com o Ministério da Saúde. Os consórcios intermunicipais de saúde ampliaram a oferta microrregional de especialidades médicas, cumprindo à risca a descentralização do SUS. O Programa de Assistência Domiciliar – PAD –, inédito no país, está sendo copiado por outros Estados, devido à sua eficácia, assistindo os pacientes em casa, como se fosse no hospital, com equipes completas, proporcionando uma recuperação muitas vezes mais rápida.  
– Governador, como fica a Educação?  
Estou chegando lá. Mas é preciso um pouco mais sobre a Saúde. Mesmo assim, é uma síntese. Realizamos, em parceria com o Governo Federal, a capacitação de profissionais de nível superior para atuação no programa, oferecendo um serviço de melhor qualidade para a população. Nos casos de acidentes, renomados neurocirurgiões, ortopedistas, cirurgiões vasculares, anestesistas e intensivistas, entre outros especialistas, asseguram, 24 horas por dia, um atendimento de alta qualidade à população, destacando o Espírito Santo pelo alto nível de segurança nos atendimentos de urgência e emergência para os usuários do SUS. O Espírito Santo vem se destacando no cenário nacional como um dos melhores projetos de recuperação da Saúde Pública. Redução da mortalidade infantil, assistência preventiva à família, atendimentos emergenciais, transplantes, hemocentros, descentralização e a completa cobertura vacinal para idosos, muitas foram as realizações em benefício da população. Finalmente, quanto à mortalidade infantil, a Organização Mundial da Saúde considera aceitável o índice 15 mortes para mil nascidos vivos. No Brasil, o índice é de 30 por mil. Aqui, nós reduzimos para 17, em queda para 15. Um êxito enorme!  
– E quanto a Educação, governador?  
– Vamos à Educação... Fila de matrícula virou coisa do passado. Cem mil novas vagas acabaram com a angústia dos pais na hora de colocar os filhos na escola. Fila agora é a favor, porque o pai faz questão de colocar o filho na escola pública. O Unicef classifica a educação pública no Espírito Santo como uma das 4 melhores do país, temos um ensino de primeiro mundo e qualidade reconhecida pela Unesco. A modernização do ensino em todo o Espírito Santo equiparou as escolas públicas estaduais às melhores escolas privadas. O Procap – Programa de Capacitação – beneficiou mais de 15 mil professores de 1ª a 4ª séries. O Espírito Santo é o único, veja só, o único Estado da Federação com um programa desse alcance, com 98% de adesão do magistério, proporcionando novas alternativas de aplicação didática, utilização de internet e outras capacitações. Abrimos a oferta de 4.600 novas vagas para o magistério e mais de 3 mil cargos para gestão escolar. A qualidade do ensino reduziu os índices de repetência em 25%. Os índices de reprovação e evasão escolar também caíram de forma acentuada, graças a um programa de aceleração de aprendizagem. O Programa Pró-Ciências tornou fácil o ensino de matérias complexas como física, química, biologia e matemática. Esse programa foi criado e desenvolvido para melhorar o domínio dos conteúdos específicos de todos os professores do ensino médio do Estado, em disciplinas complexas, com difícil abordagem didática: física, química, biologia e matemática. Em três anos, foram capacitados 2.450 professores e investidos R$ 2,3 milhões, incluindo desenvolvimento de 720 kits experimentais para apoio ao trabalho do professor.  
– Concursos públicos na Educação. O senhor abriu?  
– Há 20 anos o Estado não fazia concursos públicos. Abrimos agora, não só para a Educação. Nessa área foram abertos concursos para 2.700 vagas e autorizamos concurso para 3 mil vagas de DTs administrativos. Também, para 140 novos fiscais fazendários, 350 soldados e 80 sargentos na PMES.  
– Como ficou a geração de empregos no seu governo?  
– Foram gerados 60 mil empregos nos primeiros três anos de governo. É o maior aumento proporcional da oferta de empregos no Sudeste. A soma dos empregos gerados nos oito anos anteriores a este governo foi de 49 mil empregos. Vêm mais empregos por aí, com investimentos privados de R$ 19 bilhões até 2005, 40% já sendo aplicados. A diversificação das várias atividades econômicas é também uma realidade planejada e incentivada por nós, desde o início. O Espírito Santo atrai a iniciativa privada. Isto é inquestionável e muito visível.  
– Visível?  
– É uma explosão. Com grande visibilidade. Veja, por exemplo, o que ocorre na Grande Vitória. Hotéis de cadeias internacionais, apart hotéis, quase 2.000 novas unidades hoteleiras, shopping centers sendo inaugurados e novos sendo construídos... São, aí, milhões e milhões de reais sendo investidos! Visível sim, como o Call Center da Embratel em Vila Velha, hipermercados, a explosão dos serviços nas áreas de comércio, da armazenagem, das tradings, das estações aduaneiras, dos portos de suprimentos para a exploração petrolífera, novos serviços portuários.  
– Mas isto é na Grande Vitória. E no interior?  
– A revolução é enorme também. E está apenas começando. Quando chegamos ao governo, em 1999, a fruticultura estava em terceiro lugar no setor primário. Hoje ocupa o 2º lugar, logo abaixo do café. Nós estimulamos muito a implantação da fábrica Sucos-Mais, em Linhares, um grupo mineiro. Já temos na região serrana a fábrica do Caliman, outro orgulho para o Estado. Há espaço para muitas outras do gênero. E aí se abrem largos horizontes para a fruticultura no Estado, de clima temperado e de clima tropical. Um estímulo enorme que, em breve, vai mudar a paisagem agrícola do Estado. Você vai ver. Vão surgir mais e mais plantações de mamão, laranja, maracujá, coco, manga, goiaba etc. Outras indústrias, como a Poltex, em Ibiraçu, estão começando a estimular outros cultivos, como é o caso do algodão.  
– Mesmo assim, no seu governo, não houve grande desenvolvimento industrial no interior.  
– Houve sim! Vou lhe mostrar. O setor de rochas ornamentais, há 4 anos, exportava majoritariamente blocos, sem agregação de valor. Hoje, sai muito pouco bloco. Daqui da janela do palácio eu posso ver o movimento do porto. Como era e como é hoje, nesse setor e em outros. O industrial do setor faz placas, ladrilhos etc., para os mercados externo e interno. A indústria se desenvolveu, gerou tecnologia de primeiro mundo, excelência empresarial, agregando valor e ganhando competitividade. No interior do Estado, outro setor é o moveleiro. Há 4 ou 5 anos, era praticamente doméstico. Hoje, avançou muito tecnologicamente, ganhou competitividade e exporta para vários países, além do mercado interno. Exemplo de indústria recente é a Celofarm, a primeira indústria de medicamentos genéricos do Estado, que trouxemos para o Espírito Santo, e foi implantada na Serra.  
– E como está o setor de confecções?  
– Isto. Além dos pólos de Santa Inês, Glória etc., na Grande Vitória, há os pólos de Colatina, São Gabriel, Linhares, por exemplo.  
Nós ajudamos muito, com boa administração tributária, esses setores, que têm presença forte no interior do Estado. Reduzimos alíquotas, permitindo mais competitividade, com rebatimento no aumento da receita estadual, pactuado com os empresários.  
– Reduziu alíquotas e aumentou a receita?  
– Foi uma estratégia que deu certo. Apostamos nos empreendedores e nos empreendimentos. Fizemos um pacto, e acertamos. Quase todas as alíquotas foram reduzidas: café, carne, leite, até o mel de abelha, cachaça, praticamente todos os setores produtivos.  
Para ingredientes da cesta básica, a alíquota chega a zero. Confecções, com alíquota reduzida a 5%.  
As micro e pequenas empresas receberam tratamento privilegiado. Ouça os empresários desse segmento. Estão felizes! Além disso, acabamos com a burocracia. Acabamos com aquela maquininha que, além de tudo, custava R$ 2 mil ou mais, só para a implantação, fora a manutenção. Um absurdo!  
– Teria sido aí uma grande mudança?  
– Há coisas ainda mais revolucionárias na estratégia tributária. Por exemplo: a cobrança de tributos pela internet. Muito importante. Nenhum Estado brasileiro tem isto! O contribuinte entra no site da Secretaria da Fazenda, direto. E o processo é imune a falsificações. Um avanço enorme!  
– Nessa questão de modernidade, de informatização, de internet, como foi a ação do Governo?  
– Acabamos de falar. Já estamos pagando tributos pela internet. Mas há muito mais: implantamos o Diário Oficial Eletrônico, com rapidez, segurança e confiabilidade, substituindo o papel impresso, aos poucos. Somos pioneiros também nisso! Também iniciamos a implantação do chamado Governo Eletrônico. E informatizamos instituições inteiras, como a Polícia Militar, o Corpo de Bombeiros, a Polícia Civil etc. Na agricultura, a eletrificação rural avançou muito. As Ceasas de Cachoeiro e Colatina; construção de dezenas de matadouros em municípios do interior; os parques estaduais de Pedra Azul e Forno Grande; Cultura: construção de muitos teatros.  
– E o Bandes, como se situa no seu governo?  
– A exemplo da Cesan, do Detran, o Bandes foi recuperado e modernizado. Saiu do vermelho onde estava até 1998, com prejuízo de R$ 42 milhões para um azul, de R$ 23,3 milhões positivos, em 2001. A inadimplência caiu de 34% em 1998 para 5,3% em 2001, o índice mais baixo em toda a história do Banco. A hipoteca foi substituída pela alienação fiduciária no Bandes e no Banestes.  
Vale citar aqui alguns empreendimentos de que o Bandes também participa: Brametal (Linhares); Fiesa (Ibiraçu); Solesa (Cariacica); Perfilados Rio Doce (Linhares); Rimo (Linhares); Cia Portuária (Vila Velha); American Cofee (Nova Venécia); Hiper Export (Vila Velha); Incospal (Serra); Lubmar (Serra); Rodosol (Vitória); Metalosa (Colatina); Real Café Solúvel (Viana) etc. etc.  
– E o petróleo, a nova fronteira econômica que sempre entusiasmou o senhor. Como fica?  
– Tem petróleo, muito petróleo no Espírito Santo. Muito no mar e muito em terra. Desde a pangéia, há milhões de anos, quando os continentes, juntos, começaram a se separar, havia petróleo e gás onde muito depois viria a se localizar o Espírito Santo. No Espírito Santo tem petróleo porque em Angola tem petróleo. No futuro, poderão também ser descobertas jazidas de diamantes no Espírito Santo, como existem em Angola. África do Sul tem diamantes e no Uruguai, que se descolou de lá no passado remoto, há jazidas de diamantes.  
Os campos petrolíferos no mar territorial do Espírito Santo vão ser identificados por espécies de baleias, por exemplo: Jubarte, Cachalote etc. Para este final de ano, pressinto que é preciso recolher novos nomes de baleias. Porque devem ser muitas as jazidas novas que serão anunciadas. Repito: ainda este ano, desdobrando-se pelo começo do outro.  
– Mas quais são as nossas reservas hoje? E produzimos quanto?  
– Hoje só produzimos 26 mil barris/dia. Somos o sexto produtor. Vamos terminar o ano como o quinto produtor, com 43 mil barris/dia. Até 2005/2006, a Petrobras espera produzir no Espírito Santo 120 mil barris/dia e cerca de 200 mil barris/dia em 2007. E, aí, o Espírito Santo já será o segundo maior produtor do país.  
Já somos hoje o segundo Estado em reservas, que em 4 anos passaram de 89 para 850 milhões de barris.  
– E quanto ao gás?  
– Os campos de gás de Peroá e Cangoá, no mar territorial norte do Espírito Santo, estão em fase de contratação. Em junho de 2004, devem produzir 2,4 milhões de m³ de gás natural. Com novas jazidas de gás descobertas, como a de Fragata, poderá ser implantado um pólo gás-químico no norte do Estado. E tudo está apenas começando nesse setor, no Estado.  
Antes mesmo de minha posse, eu antevia um cenário de plataformas de petróleo e gás no Estado, com dezenas de helicópteros rasgando estes céus, navios de suprimentos, febril atividade portuária, explosão no setor de serviços do Espírito Santo. Isto começa a ocorrer.  
– O senhor parece vibrar muito quando fala do Espírito Santo. Tudo bem. Mas ponha racionalidade nisso. Explique o porquê desse entusiasmo?  
– Conheço bem este Estado. E o nosso povo, que é um dos nossos melhores ativos, tem raízes em quatro continentes. Um notável caldeirão racial. Na década de 60, tínhamos uma economia rural, valores rurais, presos à monocultura do café e sem grandes horizontes econômicos. Em 30, 40 anos, constituímos uma pujante economia industrial e de serviços, com 7% de base primária, 36% de do setor manufatureiro industrial e 57% de serviços. Se fôssemos um país soberano, estaríamos no primeiro mundo. Veja só: em 1970, o PIB do Brasil era de US$ 46 bilhões e o do Espírito Santo era de apenas US$ 500 milhões. E demos um salto em 30 anos, passando a 2% do PIB brasileiro.  
– Tem agora o petróleo...  
– Espere aí. Veja só: construímos essa forte economia industrial e de serviços, um complexo portuário que é o maior do hemisfério sul, crescemos proporcionalmente, por década, sempre mais que o Brasil. Veja: entre 70 e 80, o Brasil cresceu 8,7% e o Espírito Santo 12%. Entre 80 e 90, o Brasil cresceu 2,7% e o Espírito Santo 5,6. Entre 90 e 94, Brasil 1,2% e o Espírito Santo 4,5%. Em 95, Brasil 4,6% e o Espírito Santo 7.9%. Saltos enormes! Em julho de 2001, com o dólar a R$ 2,35, o PIB do Brasil era de US$ 595 bilhões, e o do Espírito Santo era de US$ 12 bilhões.  
– Qual o rebatimento dessa emergente realidade do petróleo e do gás na economia capixaba?  
– A realidade dessas novas fronteiras econômicas vai superar todos os nossos sonhos. Nós só não podemos é deixar que aconteça conosco o que aconteceu, por exemplo, com a Nigéria, em que todo mundo correu para o petróleo, o país não produziu mais nada e importa tudo. Não vai acontecer conosco porque aqui temos uma sólida economia industrial e de serviços. E a nossa base primária repousa sobre uma malha de pequenas empresas rurais familiares, construída a partir de 1848, majoritariamente por imigrantes que desmataram suas glebas e introduziram o café.  
Temos orgulho disso. Veja só: o governo federal, além do Ministério da Agricultura, criou o Ministério do Desenvolvimento Agrário que, na prática, pretende reproduzir por todo o país a experiência de divisão agrária do Espírito Santo, com empresas familiares e 90% das propriedades rurais com menos de 100 hectares.  
Há também a pecuária de leite e de corte. E a avicultura. Você sabia, por exemplo, que Santa Maria de Jetibá produz 3 milhões de ovos por dia? Quase um ovo por habitante do Espírito Santo! Todo dia!  
– E na área da Segurança?  
– Aí a transformação foi evidente demais. Você se lembra como era? 700% de crescimento de homicídios na Grande Vitória em dez anos (88 a 98); 940 motins e rebeliões nos presídios e cadeias do Estado, de 95 a 98; presídios e cadeias sob o domínio total dos presos; quebra da hierarquia e da disciplina; assaltos a Banco todo dia; 1.200 policiais militares à disposição de Câmaras Municipais, Fóruns, Prefeituras, Assembléia Legislativa, etc. Pois bem: não houve rebeliões no atual governo; os presos nunca mais tiveram o domínio dos presídios.  
– Mas a gente vê rebeliões na TV todo dia, no Brasil todo!  
– É, mas aqui não! Durante quatro anos de nosso governo não houve motins ou rebeliões. Só distúrbios internos superados rapidamente, sem ganhar notoriedade. Rebeliões, como antes, nenhuma! Ocupamos os presídios com a Polícia Militar que está lá até hoje. As fugas, que em 1998 chegaram a 63% da população carcerária, hoje são de apenas 1% numa população carcerária que dobrou em quatro anos.  
Nós fizemos aqui a primeira experiência, inédita no Brasil, de presídios sobre pilotis. Houve até uma reportagem no “Fantástico”, da Rede Globo. Adaptamos para pilotis, os presídios de Linhares, Cachoeiro e o anexo da Casa de Detenção. E já construímos sobre pilotis os presídios de Colatina e o de segurança máxima de Viana, que acabamos de construir e é considerado, hoje, o melhor do país. O Espírito Santo está próximo de ser um dos primeiros Estados do Brasil a resolver o problema da superpopulação carcerária. As novas unidades prisionais encerram definitivamente um triste capítulo em nossa história. Não são galpões para depósito de presos. Estão equipadas com salas de aula, oficinas de trabalho e auditório. Nelas, os presos cumprem penas, ao mesmo tempo em que executam trabalhos e aprendem ofícios. Hoje, os presos são tratados com dignidade, fazem bolas, roupas, vassouras, móveis, mas permanecem presos.  
– Como foi esse processo de retomada dos presídios?  
– Na madrugada de 1º de fevereiro de 1999, comandamos, pessoalmente, o contingente da PM que estava no Centro de Formação e Aperfeiçoamento, em Santana, Cariacica, para retomar os presídios e colocá-los, novamente, sob a autoridade do Estado. As instalações físicas do sistema penitenciário estavam completamente destruídas. Nosso governo investiu milhares de reais para recuperar e expandir o sistema prisional. Reduzimos as fugas para menos de 1%, duplicamos o número de vagas, e ainda estamos deixando para o próximo governo novas penitenciárias.  
– É mesmo de segurança máxima, a nova penitenciária?  
– O conceito de segurança máxima subentende que a possibilidade de fuga é quase zero. Recentemente, o programa “Fantástico”, da Rede Globo, noticiou que a penitenciária Mosesp II, em Viana, é um modelo de presídio a ser copiado pelos demais Estados brasileiros. Antes de meu governo, foram construídas penitenciárias de lajota em pé, num total desperdício do dinheiro público. Em nenhum outro tempo, na história do Espírito Santo, investiu-se uma soma de recursos tão grande para melhorar o sistema penitenciário de nosso Estado!  
– Nessa questão da segurança pública, o que se faz diferente dos governos anteriores?  
– É só parar e rever a história. Antes do meu governo, a segurança pública se reduzia a uma questão de polícia. Não havia planejamento, nem estratégia, nem metas. Introduzimos inteligência e estabelecemos a primeira política pública de que se tem notícia no Brasil. Em quatro anos, já investimos mais que nos dez últimos governos ou 40 anos que nos antecederam. É fácil constatar isto, comparando os orçamentos anuais.  
– E o PRO-PAS?  
– PRO-PAS quer dizer: Programa de Planejamento de Ações de Segurança Pública. É a primeira política de segurança pública implantada por um Estado brasileiro. Por isto, virou exemplo. É abrangente e moderno, se baseia no planejamento prospectivo e está alicerçado em princípios modernos e democráticos. É uma concepção e implantação genuinamente capixabas, e já é referência para outros Estados e mesmo países como a Costa Rica, na América Central.  
Hoje, o PRO-PAS deixou de ser um programa de governo e passou à categoria dos projetos que se incluem no futuro do Espírito Santo. Sem dúvida, é uma das grandes realizações do meu governo no setor de segurança.  
– O que o PRO-PAS trouxe de diferente para a área de segurança pública?  
– Trouxe inteligência sistêmica. Deu um basta na mesmice. Desfocou a questão da segurança pública da visão de que o problema da segurança é apenas de responsabilidade das polícias. Alongamos as parcerias com a sociedade civil organizada e passamos a ter cientificidade no trato das questões policiais, associando o programa à Ufes e ao Instituto de Pesquisa Jones dos Santos Neves.  
– Quais os projetos que podem ser destacados como inovadores no PRO-PAS?  
– Ao todo, o programa é composto de oito projetos e 23 subprojetos, que tratam de modo amplo e integrado da reforma da segurança pública no Espírito Santo. Idealizamos, através de nossos técnicos, um leque de atitudes que incluem ações que vão da prevenção positiva à repressão qualificada. Todos os projetos são atuais e, juntos, estão fazendo refluir, pelo terceiro ano consecutivo, a curva da criminalidade no nosso Estado. Aliás, nos últimos 23 anos, segundo dados do Sistema Único de Saúde (SUS), só a partir de 1999 a criminalidade está em queda no ES.  
– E os homicídios aumentaram nesse período de governo?  
– O nosso governo investiu na jovem oficialidade da PM, além de ter estimulado, também, setores da Polícia Civil a adotarem uma posição mais técnica e qualificada no enfrentamento da criminalidade. A Unesco, o Ilanud, o SUS e o Ipes são unânimes em mostrar que os diversos indicadores de criminalidade, ineditamente, estão em queda no nosso período de governo. Vitória que, quando assumimos, era a capital mais violenta do país, hoje, caiu para a terceira posição e continua a cair ainda mais nesse ranking.  
– Parece contraditória a recente pesquisa da Fundação Getúlio Vargas que coloca Vitória como a capital do Brasil onde a população sente menos medo. O que o senhor acha disto?  
– É mesmo muito interessante este fato. Se olharmos pela ótica de determinados segmentos políticos e da mídia de oposição, nós jamais viríamos visitar Vitória como turistas. A campanha que fizeram contra o Espírito Santo transformou mentiras em “verdades”. Agora, a FGV está mostrando o contrário. Vitória é bela e, depois do PRO-PAS, tornou-se segura, com policiamento visível e eficiente, a contragosto de algumas pessoas que antes dominavam a cena da segurança pública, mas que não conseguiram reduzir ou controlar a criminalidade.  
– Que cenários o atual governo transmitirá ao próximo na área da segurança pública?  
– Fomos o primeiro Estado a treinar e formar policiais de modo integrado. Não levamos a universidade para a polícia e sim a polícia para a universidade. Durante todo o nosso período de governo, policiais freqüentaram o Campus da Ufes. Requalificamos mais de 4.600 policiais civis e militares, além de inúmeras lideranças comunitárias, em diversos cursos de extensão e de pós-graduação em segurança pública na Ufes.  
Hoje, o Estado é uma referência positiva para a Secretaria Nacional de Segurança Pública. Técnicos do Espírito Santo percorrem o Brasil, anunciando o que estamos fazendo, aqui, para melhorar a qualidade da segurança pública.  
Ao fim do mandato, vamos deixar uma polícia requalificada, com ferramentas modernas de gestão e operação, pois, nunca antes, se investiu tanto no Espírito Santo em segurança pública. Adquirimos armas, coletes, mais de 400 novas viaturas, temos o único aparelho de microcomparação balística do país, a polícia técnica está sendo modernizada; as duas polícias foram informatizadas e possuem até mesmo um provedor vip e de alta performance de internet gratuita, 24 horas, através da Prodest.  
Nos próximos dias, estaremos lançando a pedra fundamental da Academia Única e do Centro de Operações Integrado para as polícias. Deixo mais de R$ 15 milhões depositados no Banco do Brasil, para que meu sucessor dê continuidade à reforma da segurança pública, que iniciamos em 1999.  
Por último, é bom registrar que a aprovação popular ao PRO-PAS é da ordem de 72,3%. Um sucesso!  
– O senhor considera que faz um bom governo?  
– Lógico que sim! Além do que aqui já foi dito, nós poderíamos ficar por horas desfiando as inúmeras realizações em outros campos como os da agricultura, do turismo, no meio ambiente, na cultura...  
– ... Dizem que o senhor foi refém da Assembléia. Como o senhor se posiciona diante dessa versão?  
– Que não passa de uma versão... Mantive com a Assembléia Legislativa do Espírito Santo a postura e a relação que se espera de um chefe do Executivo: respeitando a autonomia e a soberania dos poderes, mas fazendo prevalecer posições de independência. Tanto, que alcançamos um número recorde em vetos a projetos aprovados pelo Legislativo. E também de ações de inconstitucionalidade, quando nossos vetos eram rejeitados.  
– É sempre desconfortável falar sobre certos assuntos. Mas como o senhor se sentiu quando acusaram o seu governo de práticas desonestas?  
– Quando figuras notórias da política estadual acusaram o governo e produziram um vendaval de denúncias, pedi a ação do Ministério Público e uma CPI. Determinei toda ajuda dos secretários e do governo às apurações, colocando o Executivo à disposição. Afastei servidores, independentemente de sua posição hierárquica e de vínculos pessoais.  
– O senhor não considera ingênua sua atitude? FHC e, aqui mais próximo, o prefeito Luiz Paulo lutaram e impediram CPI’s contra seus governos.  
– Já ouvi muito isto. No meu caso, mesmo depois que a CPI terminou, inocentando o governador e também descriminalizando a conduta da primeira-dama, determinada imprensa local continuou mantendo seus ataques impenitentes. Conhecendo como conhecem o governador, sua história, seu passado, seus valores e os padrões de comportamento de seus familiares, essa imprensa praticou comigo e com a minha família um linchamento sem precedentes no Espírito Santo. Uma monstruosidade! De qualquer modo, mesmo que pareça ingenuidade, nunca deixei jogar nada para debaixo do tapete. Sempre deixei clara a disponibilidade de meus sigilos e sempre liberei os deputados para realizarem ou autorizarem qualquer apuração.  
– Em algum momento o senhor pensou que poderia ser afastado do governo?  
– Nunca acreditei nisso! Houve um tempo em que governei com os olhos molhados. Deus, minha família e os amigos mais próximos sabem o quanto sofri sob o peso de tanta ferocidade. Denúncias sem prova contra o governo saltaram para as manchetes de jornais, rádios e televisões de certa imprensa. A fórmula era simples: procurava-se alguém desqualificado para veicular uma acusação escandalosa. Depois, ele desaparecia, mas a amplificação de tudo era feita criminosamente por essa imprensa. A Maria Helena até hoje não se recuperou do trauma que sofreu, da injustiça da acusação sem prova feita contra ela por uma figura repulsiva e indigna que conseguiu enganar tanta gente.  
O que faltou a essa orquestração perversa, foi o apoio do povo. O povo percebia o artificialismo, o complô. Conhecia, sobretudo, a história do governador e de sua família. Sabia e sabe que o governador não tem imagem fabricada, não tem família de fachada, vícios ocultos, desvios de personalidade, irresolução pessoal. Por isso é que 60 dos 78 prefeitos do Estado apoiaram o governo naquele episódio. E por isso, também, é que não houve “caras-pintadas” nem movimentos de rua. Só a favor, traduzidos no carinho do povo, nos contatos pessoais, nos e-mails, nas cartas, telegramas que conservo nos meus arquivos.  
– As acusações pesaram bastante na sua história pessoal?  
– É claro que pesou. A sociedade está muito lúcida e crítica. Ninguém, ao longo de toda a minha vida, sequer denunciou algo contra mim. Fui vereador; deputado; depois cassado pelos militares; duas vezes presidente da OAB; vice-presidente da União Internacional dos Advogados; duas vezes senador; 1º vice-presidente do Senado e do Congresso; presidente da CPI da Corrupção; relator adjunto da Constituinte; presidente da maior estatal do país, a Telebrás; governador do Estado. Na vida familiar, sou casado há 32 anos, constituí um lar com sólidos fundamentos cristãos, filhos com a mesma formação e valores. Essas coisas são auto-explicativas. Não comportam distorções. Você passa de trem, vê uma terra e, sem tocar nela, você sabe que ela é boa ou se é fraca. Pela vegetação você conhece. Assim são os filhos: a conduta deles, a boa ou má-formação revelam o lar que os gerou e criou...  
– Vamos sair desse assunto. A equipe de transição do governador eleito falou que a folha de pessoal foi “inchada” com nomeações eleitoreiras. E que isto comprometeu o saneamento fiscal do Estado.  
– A realidade é bem outra. E isto é documentado pelo ofício que a Secretaria do Tesouro Nacional nos enviou, atestando o cumprimento, pelo Estado, das metas de saneamento fiscal por ela estabelecidas. A meta de despesa de pessoal, fixada por lei e pela Secretaria do Tesouro Nacional em 60%, foi alcançada com sobras. Está em 47,09%. Sublinho que, quando chegamos ao governo, esse percentual era de 80% ou, se incluída a receita do Fundap, de 61%. Nós reduzimos muito as despesas com pessoal. Ficou uma sobra de 13 pontos percentuais até os 60% da meta fixada para despesas com pessoal.  
– Quer dizer que não houve aumento de pessoal?  
– Houve aumento, sim, mas a receita também aumentou e, por isso, o Estado pôde cumprir todas as metas de saneamento fiscal. As elevações salariais foram feitas com moderação e justiça, com o governo sempre de olho na Lei de Responsabilidade Fiscal. Além disso, o INSS passou a exigir contribuições previdenciárias sobre a folha dos cargos comissionados e contratados temporariamente. E ocorreu o próprio crescimento vegetativo da folha de pagamento. Mas tudo dentro dos limites previstos na Lei de Responsabilidade Fiscal e no contrato de saneamento fiscal do Estado com a União.  
– Sim, mas há aquela história dos DTs ou contratados temporariamente...  
– É preciso que esta questão dos chamados DTs seja tratada de forma isenta. Na verdade, o número de DTs tem permanente oscilação, devido a fatores específicos: em 1998, foi extinto um contrato entre a Secretaria da Educação e a empresa Shopping Limpe, para a limpeza de escolas. Cinco mil pessoas ficaram desempregadas. A partir daí, ainda no governo anterior, foram feitos contratos temporários. Depois, a partir de 1999, continuaram a ser feitos esses contratos para limpeza nas escolas.  
– Isso explica a admissão de pessoal temporário.  
– Aliás, é temporário mesmo. Os contratos, para diversas prestações de serviços temporários, todos se extinguem no dia 31/12/2002. O futuro governo vai então avaliar a conveniência de mantê-los ou não.  
Além disso, muita gente se aposentou no Estado. Só na administração direta, foram 2.185 aposentadorias, 90% de professores, até setembro deste ano, substituídos por DTs. E mais, a grande ampliação da rede escolar, além do setor da saúde, com o maior hospital do Estado, inaugurado em Vila Velha, os hemocentros de Colatina e São Mateus, novas Utins, urgência e emergência do Hospital da PM etc.  
– E sobre a agricultura? Como foi o seu governo?  
– Converse com qualquer proprietário rural do Estado. Ele enaltecerá o cumprimento da lei, pelo governo do Estado, no caso das invasões de terras. O governo deu sempre cumprimento às decisões judiciais, como, aliás, era e é de seu dever. Os proprietários rurais confirmam que este é um governo de paz no campo. Até porque, 50% de todos os assentamentos rurais existentes no Espírito Santo foram feitos nestes quatro anos.  
– Mas fale sobre a ação da Secretaria.  
– Espera aí, estou falando da agropecuária. Implementamos o Projeto Luz no Campo, com o governo federal, e eletrificamos 2 mil propriedades em todo o Estado. O fim do lampião que, residualmente, ainda existia, pela falta de eletrificação em pouquíssimas propriedades rurais. Acabamos com a peste suína, erradicamos a febre aftosa; regulamentamos a Lei de Agrotóxicos. Vetamos o projeto de zoneamento rural referente ao eucalipto; fortalecemos a cafeicultura; construímos as Ceasas de Cachoeiro e Colatina; implantamos o Banco da Terra.  
– O café gera muitos empregos. O que foi feito para o cafeicultor?  
– Reduzimos de 13 para 5% o imposto sobre o café. Implantamos o programa de renovação da cafeicultura do conilon. Lançamos a variedades do robustão, tolerante à seca. Prestigiamos em tudo a cafeicultura. Inclusive, junto ao governo federal, conseguimos a prorrogação, para até 12 anos, de todos os débitos dos cafeicultores.  
– O senhor não falou, por exemplo, sobre a pecuária leiteira.  
– Vou falar agora. Nós fortalecemos todas as cooperativas do setor. Reduzimos o ICMS do leite de 12% para 1%. Peça a opinião das cooperativas ou dos produtores de leite, sobre o governo. O setor está muito feliz. Pode competir com Estados vizinhos.  
– O governador eleito referiu-se a uma lei, 7249, de julho de 2002, que permite o pagamento de ICMS com precatórios, bens móveis e imóveis. O que o senhor tem a dizer sobre isto?  
– Trata-se de uma lei originária do Poder Legislativo que foi vetada por mim. O Legislativo derrubou os vetos e promulgou-a. Eu, então, determinei que o Estado agisse junto ao Supremo, com a Adin que foi proposta e já tem relator. Mais: determinei à Procuradoria Geral do Estado e à Fazenda o indeferimento e arquivamento de qualquer pleito com base nessa lei, que quero suprimir do nosso universo jurídico.  
Aliás, nos últimos quatro meses, de junho a novembro, foram ajuizadas 19 Adins, pela Procuradoria Geral do Estado, perfazendo média mensal de quatro ações ajuizadas no STF. Todas contra aumento de despesas, aumento de salários, isenção de pedágios etc.  
– Então, essa questão de precatórios...  
– Não há nenhuma possibilidade de recebimento de precatórios pelo Estado para pagar dívidas de qualquer natureza. Todos os pedidos foram indeferidos.  
– Quais são as principais obras de seu governo?  
– Mesmo com o êxito no saneamento fiscal atestado pela Secretaria do Tesouro Nacional e com a compressão nos investimentos públicos, há obras marcantes. A principal delas é o saneamento básico, com o Prodesan, que dá continuidade ao Prodespol, iniciado no governo Albuíno. O Prodesan talvez seja a maior obra do governo em todos os tempos na história do Estado. A cobertura de esgoto na Grande Vitória está passando de 13% para 42%. Vitória sai de 36% para 53%; Vila Velha sai de 3% para 40%; Cariacica sai de 7% para 35%; e Guarapari sai de 11% para 39%. Um registro especial: a praia do Morro saiu de zero para 100% de cobertura de esgoto.  
– Isto é referente ao Prodesan, um programa específico. Mas como é o desempenho da Cesan, como empresa do Estado?  
– A Cesan deu um salto quantitativo e qualitativo. É só ver que, hoje, o Espírito Santo é o terceiro do Brasil em oferta de água e o quarto do país em saneamento básico, segundo a “Gazeta Mercantil” e a “Revista Amanhã”. Aliás, segundo o IBGE, o Espírito Santo é o quinto Estado do país em saneamento básico adequado, isto é, na média entre abastecimento de água, coleta e tratamento de esgoto e lixo.  
Mais: A Cesan ganha prêmios máximos de qualidade por quatro anos consecutivos. Ampliou, modernizou e automatizou o sistema de produção do rio Jucu e garantiu água farta e de qualidade à Grande Vitória, até 2016. Os investimentos ultrapassaram R$ 400 milhões, e implantamos o recorde de um quilômetro de rede de água e esgoto por dia útil.  
– E a Cesan no interior?  
– Houve uma revolução social no interior do Estado, com a retomada do programa de saneamento básico para comunidades rurais (Pro Rural). Implantou e complementou centenas de sistemas de esgotamento sanitário em inúmeros municípios do interior. Em síntese, foram mais de mil quilômetros de redes de água e esgotos em todo o Estado. Isto significa 20% de tudo que a Cesan já implantou em 35 anos no Estado.  
– E outras obras do governo, em outras áreas?  
– Apenas para exemplificar, na Educação, centenas de obras: Centros de educação, construções, reformas e ampliações de escolas, quadras e ginásios poliesportivos, Centro de Convenções. Na Saúde, reforma, ampliação e modernização de todos os hospitais públicos; inauguração do maior hospital público do Estado; inauguração dos hemocentros de Vitória, São Mateus e Colatina; do novo Laboratório Central de Saúde Pública; ampliação da indústria farmacêutica no Espírito Santo etc. Na Sedit, sempre para exemplificar, 55 km de ruas, em Vila Velha, Cariacica e Serra, dentro do programa Transcol II; construção da maior rodoviária do Espírito Santo, em Campo Grande – Cariacica; asfaltamento de vias urbanas e rodovias estaduais no Espírito Santo, como por exemplo: Santa Teresa-Caldeirão-Santa Maria de Jetibá; Santa Teresa-São Roque; Aracruz-Guaraná; Nova Almeida-Santa Cruz à Fábrica da Aracruz; Jabaquara-Anchieta; Nova Venécia-Pavão; Vila Pavão-Ecoporanga até a divisa ES/MG (Ataléa); reinício da ES/BR 484 (Afonso Cláudio-Lagoa). Várias obras emergenciais; rodovia ES 130 (Nova Venécia-Boa Esperança-Vinhático); (São Mateus-Nova Venécia); (São Mateus-Guriri); (São Roque-Colatina); Ponte de Águia Branca; Ponte de Santa Teresa; Ponte de Itapemirim. Isto sem falar em toda a Rodovia do Sol, contorno de Guarapari, que são obras do governo do Estado sob regime de concessão. E, também, a nova ponte de Colatina, toda executada pelo governo do Estado.  
– E o turismo? Sempre esquecido dos governos do Espírito Santo.  
– Neste governo, não! Demos visibilidade ao turismo. Criamos, afinal, uma Secretaria de Turismo que disse a que veio. Com US$ 60 milhões, vai mudar a cara do norte com os recursos do Prodetur II, arrancados para o Espírito Santo em verdadeira batalha contra os Estados nordestinos que não queriam abrir espaços. Os projetos foram feitos e aprovados, o dinheiro vem aí e o norte capixaba vai receber os investimentos. Não se trata de promessas, mas de certezas.  
Outro ângulo: os planos diretores municipais, estimulados pela nova perspectiva de turismo, estão sendo implementados. O Projeto Cama e Café, que já mobiliza a economia (pequeno emprego e renda) num Caparaó que decola para o turismo. E muito mais, num Estado belíssimo, de praias e montanhas com climas tropical e temperado, de sítios da humanidade com a maior biodiversidade do planeta, rios como o Doce, lagoas como a Juparanã, raças, costumes e tradições.  
– Governador, há uma curiosidade geral para a sua resposta a  
duas perguntas: primeiro, qual é o seu estado de espírito ao deixar o Governo? E segundo, qual o seu futuro?  
– Deixo o Governo com muito mais fé. As metas, os sofrimentos e as realizações deram muita musculatura às minhas crenças em Deus, nos valores que defendo e no futuro do Espírito Santo. O poder hoje é sofrido, não gozado. Isto vale para todos, num tempo tão notável de transformações no mundo. Hoje, ninguém pode governar o tempo todo com os olhos secos. Mas, ao fim do Governo, conservo o mesmo brilho nos olhos de quando cheguei. É certeza do dever cumprido e fé no futuro do Estado!  
– E quanto ao seu futuro?  
– Vou me dedicar ao que gosto muito. Às minhas leituras, aos cursos de aperfeiçoamento profissional, à advocacia e consultoria de direito  
 
 



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