Vidabrasil circula em Salvador, Espírito Santo, Belo Horizonte, Brasília, Rio de Janeiro e São Paulo Edição Nº: 321
Data:
30/12/2002
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Turismo Veneza

Sobre Veneza quase tudo já foi dito.Para os românticos, é um local único. Poetas cantaram a beleza do pôr-do-sol no Grande Canal, onde as águas do mar Adriático surgem como um espelho cujos reflexos caleidoscópicos cintilam na alvura dos palácios renascentistas. Outros vibram com a bruma mística que se costuma abater sobre a cidade, envolvendo-a sob um manto de mistério que serve de cenário ao mais famoso carnaval da Europa e onde os encapuzados vagueiam pelas ruas labirínticas entrecortadas pelas inúmeras pontes que surgem em cada esquina.  
Para os mais racionalistas, Veneza pode ser apenas uma cidade que nasceu e cresceu no meio da laguna. Uma cidade formada por 117 ilhas, 150 canais e 400 pontes. Pode parecer menosprezo para a cidade que os venezianos construíram sobre o fundo lodoso e embelezaram graças às riquezas acumuladas de uma profícua atividade comercial que remonta aos tempos da Idade Média, mas também não deixa de ser uma definição.  
Por isso, tanto os românticos como os racionalistas têm razão. Veneza é um pouco das duas observações, mas também é verdade que quem um dia visita a laguna não deixa de pensar no regresso a uma cidade cujas origens remontam aos tempos da queda do Império Romano, quando no século V os povos bárbaros do norte invadiram as fronteiras romanas.  
Povoamento da laguna  
Naquela época, para escapar às hordas invasoras, as populações fugiram para a laguna, ocupando as suas pequenas ilhas onde estabeleceram os acampamentos. Pouco a pouco, foram surgindo as primeiras casas construídas sob estacas que eram enterradas no fundo do lodo da laguna, um sistema que veio demonstrar ser tão sólido como resistente, tanto que perdurou até ao século XVII, ocasião em que a igreja de La Salute foi construída ainda desta forma arcaica.  
Quando se iniciou o povoamento da laguna, cada ilha era independente das suas vizinhas, mas tal como os marinheiros de uma grande armada, cedo perceberam que a sua força estava na união dos esforços necessários para resistir não só aos inimigos comuns, mas também às ofensivas do mar. Foi assim que as ilhas se foram aproximando. Foram construídas pontes e assoreados alguns canais de modo a dilatar a área de terra firme, um bem que cedo se tornou precioso para os venezianos, que na mesma época assumiram um dos grandes traços do seu caráter de cidadãos: todos os homens são iguais, mas subordinados a um bem comum.  
É difícil dizer com exatidão quando é que o destino de todos os refugiados que se abrigaram na laguna foi assumido como uma cidade, mas a tradição afirma que tal foi proclamado - evidentemente com solenidade – em 25 de março de 421, ao meio-dia... Tanta exatidão no ano, no mês, no dia, e até na hora, leva muitos historiadores a duvidar, principalmente porque na época o continente vivia tempos conturbados com as ricas cidades romanas caindo nas mãos dos invasores oriundos do norte, embora tantas riquezas disponíveis tivessem “pago” a independência dos refugiados. Os bárbaros esqueceram-se dos pobres pescadores que se tinham refugiado na laguna, o que lhes permitiu começar a negociar com a venda do peixe, mas também do sal, ou esse cristal retirado da água do mar não fosse um valioso bem de troca na época. Basta recordar que os próprios legionários de Roma eram pagos com sal, o que veio a dar origem ao vocábulo salário.  
A Cidade dos Dodges  
Mas se há dúvidas quanto ao momento da fundação da cidade, parece haver um entendimento sobre o início da utilização da denominação dux para a entidade que assumiu o governo dos povos da laguna. Dux chegou a ser traduzido como “duque” embora no linguajar da época tivesse uma conotação mais próxima de “dirigente”. No dialeto local a palavra dux evoluiu para dodge, tendo surgido uma função que perdurou durante mais de 1.100 anos, pelo que Veneza é hoje muitas vezes apelidada como a Cidade dos Dodges.  
Apesar de ser a personalidade que ocupou o vértice da pirâmide social na cidade-estado, podendo influenciar a sua vida cotidiana e a sua história, este dirigente estava simultaneamente de mãos atadas pela vigilância constante para evitar que pudesse ultrapassar as suas prerrogativas, abusando da autoridade.  
Deste modo, Veneza conseguiu evitar a conquista do poder por um homem ou por uma família, como aconteceu em muitas outras cidades-estados que ao longo dos séculos salpicaram a península italiana.  
Os dodges eram eleitos de acordo com um complicado processo de nomes sorteados e diversas nomeações intermediárias, onde uma criança era chamada para retirar de uma urna de ouro os nomes que formavam o colégio eleitoral que acabava nomeando o novo dirigente.  
Os eleitores eram os nobres da cidade, cujos nomes figuravam no Livro de Ouro. Eram aproximadamente dois mil, dos cerca de 120 mil habitantes da laguna, formando o que se chamava de o Grande Conselho.  
A nobreza era controlada pelo Conselho dos Dez e por três inquisidores, mais conhecidos como Conselho dos Três. Estes inquisidores detinham o poder de vida ou morte sobre qualquer veneziano. Foram eles que condenaram Casanova à prisão sobre a acusação de aliciamento de três jovens da nobreza para a maçonaria.  
O poder dos conselhos era tal, que a mínima suspeita de abuso de poder de um dodge poderia implicar a sua condenação à morte. Só no século XV, sete dodges foram assassinados, outro foi decapitado e uma dúzia de outros foram obrigados a abdicar.  
República Sereníssima  
Além de a Cidade dos Dodges, Veneza também ficou conhecida como República Sereníssima, uma denominação algo contrastante com a pompa dos apelidos que muitas outras cidades-estados italianas reivindicaram.  
A razão da escolha não é muito clara, apesar de ser conhecida desde o século XIV. No entanto, a opção pode passar perfeitamente pela serenidade de uma cidade onde a estabilidade política contrastava com revoluções sangrentas, repressões ferozes e conflitos constantes com inimigos interiores e exteriores ao espaço geográfico que hoje é a Itália moderna. Veneza escapou aos períodos mais conturbados da política regional, mantendo-se livre de grandes problemas militares até ser conquistada por Napoleão.  
Foi a estabilidade da República Sereníssima, protegida do exterior pelas águas do mar Adriático, que lhe permitiu a grande expansão comercial que criou o seu apogeu no século XV.  
Os primeiros habitantes chegaram à laguna para escapar das invasões bárbaras e rapidamente se tornaram pescadores e comerciantes de sal.  
O mar era a única riqueza da cidade, e foi pelo mar que partiram em busca das grandes rotas comerciais.  
Veneza tornou-se a porta de entrada da Europa das grandes rotas comerciais que atravessavam a Ásia, sendo o ponto de chegada da Rota da Seda, essa artéria onde pulsou o comércio medieval entre o longínquo Catai (China) e a Europa, onde se cruzavam cristãos, muçulmanos, judeus, chineses, mongóis, indianos, caravanas de camelos, cavalos e elefantes, transportando seda, especiarias e pedras preciosas, além da cultura de todas os povos e credos.  
Entre os mercadores de Veneza, Marco Polo é o mais conhecido. Partiu da Cidade dos Dodges em 1292 e viveu no Catai, na corte Mongol, que então governava o maior império jamais edificado pelo homem, tendo regressado 25 anos depois com um carregamento de rubis, pérolas e esmeraldas, que impressionou Veneza, uma cidade que na época já vivia a pompa do comércio de luxo.  
As ligações com o Oriente estão bem evidenciadas em símbolos arquitetônicos da cidade. A igreja de São Marcos não esconde as grandes influências bizantinas que testemunham os contatos próximos entre a Cidade dos Dodges e a capital do Império Romano do Oriente (atualmente Istambul).  
Depois da queda de Bizâncio, o conquistador turco tornou-se um dos grandes rivais da atividade comercial de Veneza. O apogeu da cidade surgiu no século XV, após a derrota dos turcos em Gallipoli (1416) que lhe abriu as portas do Mediterrâneo e o controle das ilhas de Creta e Chipre. Na mesma época, para se defender da cobiça dos senhores de Milão, os venezianos voltaram ao continente, onde asseguraram o Bérgamo, garantindo desta forma o domínio do mar Adriático. As galerias venezianas (todas propriedades do Estado) dominaram o Mediterrâneo durante cerca de 80 anos, mas a conquista de Constantinopla pelos turcos (1453) e a chegada de Vasco da Gama à Índia, criando uma alternativa mais rápida e lucrativa para o comércio com o Oriente, marcou o início do declínio de Veneza, que sofreu uma importante derrota naval contra os turcos em Chipre (1500). Mais tarde, na batalha de Lepanto – que salvou a Europa de uma invasão turca – as galeras venezianas foram fortemente castigadas, o que reduziu o poderio naval da cidade.  
O golpe final verificou-se em 1797, quando Napoleão conquistou a República Sereníssima, abolindo uma constituição com dez séculos de existência. Foi o fim dos dodges. O imperador francês veio depois a ceder a cidade aos austríacos, que reinaram até a cidade ser agrupada no território da Itália, após a unificação da península nos finais do século XIX.  
Quem chega a Veneza por essa grande porta de entrada que é aPiazzetta, anexa à grande praça de São Marcos, não pode deixar de ficar surpreso com as grandes cúpulas arredondadas e pequenos minaretes que contrastam com a arquitetura típica das cidades do continente. É um ambiente que nos remete para o imaginário da arquitetura oriental.  
Esta é uma das imagens de Veneza desde as suas origens. Quando as populações se instalaram na laguna para escapar às invasões bárbaras, os imperadores romanos trocaram Roma por Constantinopla (Bizâncio), deixando uma feitoria em Ravena.  
Os laços entre a emergente Veneza foram tão lógicos como naturais, e não é por acaso que a igreja de Santa Maria Assunta, na ilha de Torcello, a mais antiga edificação da Cidade dos Dodges, tem traços tão semelhantes com as igrejas de Ravena.  
O eixo Constantinopla-Ravena-Veneza foi se fortificando ao mesmo tempo que os venezianos iniciavam a atividade comercial que os levou a rumar para o Oriente. Surgiu assim uma forte influência bizantina na arquitetura da nova cidade.  
O melhor exemplo é a imponente catedral de São Marcos, na grande sala de visitas da cidade. As cúpulas cobertas de talha dourada, os mosaicos policromos recordam-nos a cada olhar o diálogo que a cidade manteve com o Oriente durante séculos.  
Triunfo do gótico  
Todavia, com a chegada do século XIV, quando Veneza caminhava para o seu apogeu, sendo uma cidade do norte, não poderia escapar às influências do estilo gótico que irradiava da França. O casamento entre o gosto educado e o estilo oriental, alterado ao sabor dos ventos das novidades arquitetônicas, deu origem ao que alguns classificam como gótico-florido, uma variante estilística verdadeiramente única, que tem o seu melhor exemplo nas obras de ampliação do Palácio de Dodges (1340/1360).  
Ao mesmo tempo em que o palácio de onde emanava o poder político da cidade foi conquistado por esta forma arquitetônica, os grandes mercadores seguiram o mesmo caminho para a construção dos palácios que foram crescendo nas margens do Grande Canal.  
A elegante assimetria do palácio Ca’d’Oro é um dos melhores exemplos desta moda que conquistou os venezianos. Ao mesmo tempo que no continente as cidades italianas começavam a sofrer as influências da arquitetura da Renascença, Veneza seguiu o seu caminho, que manteve mais tarde em outros palácios como os de Foscari e Justiniano, erigidos à imagem do Ca’d’Oro, apesar de terem surgido cerca de um século depois.  
Durante séculos, as grandes viagens dos mercadores venezianos terminavam na piazzetta adjacente à praça de São Marcos. Suas escadarias, que descem para o mar, e o longo cais, que hoje é partilhado pelas gôndolas e pelos vaporettos (transporte público) que asseguram as ligações entre as ilhas e o continente, são a porta de acesso ao lobby da cidade ladeado pela imponência do Palácio dos Dodges, as autoridades políticas da cidade durante mais de dez séculos.  
Palácio dos Dodges – A sede política da cidade-estado é um palácio que representa dignamente o poder e a glória de Veneza. Protegida pelos labirínticos canais da laguna, foi sede do Grande Conselho, a quem cabia a eleição do dodge que governava a cidade.  
Se hoje este grande palácio é visto como um dos grandes exemplos da forma como o estilo gótico foi interpretado pelos venezianos, ele é apenas o último dos três palácios que ocuparam a piazzetta.  
No início, nos tempos conturbados de século XIV, a defesa da sede política da cidade necessitava mais que o obstáculo natural criado pela laguna. Cresceu assim um castelo defendido por um fosso e uma tradicional ponte levadiça do qual não restam hoje quaisquer traços. Em 1345 começou a ser construído o segundo palácio, que visava não só abrigar a sede política de Veneza, mas também testemunhar o seu poder marítimo e comercial emergente.  
Para além de ser a residência dos dodges, este novo palácio, que foi crescendo ao longo dos anos, abrigava ainda a sede do Conselho dos Dez e do Conselho dos Três, além de ser a sede do poder judicial e até prisão.  
A história registra dois grandes incêndios (1574 e 1577), pelo que se pode concluir que a sua rica decoração interior data do século XVI.  
O Palácio dos Dodges tem duas fachadas: uma orientada para o Grande Canal e outra virada para a piazzetta. É aí que surge a Porta della Carta, um passeio frontal gótico, onde o Dodge afixava os seus decretos. Sobre a porta que hoje dá acesso aos visitantes do palácio surge uma cópia do alto relevo que representa um dodge frente ao leão de São Marcos – o símbolo da cidade – cujo original foi destruído pelas tropas napoleônicas após a invasão. No interior, encontram-se as grandes escadarias – Scala dei Gianti – cujo nome advém da presença de duas enormes estátuas de Marte (Deus da Guerra) e Neptuno (Deus dos Mares), obras de Sansovino. O palácio segue a arquitetura clássica italiana: o térreo funcionava para as atividades cotidianas, no primeiro andar era a residência do dodge e no último andar, os venezianos colocaram as salas nobres. A Sala del Collegio recebia os embaixadores estrangeiros ou os cidadãos no regresso das suas viagens. Quem esperava ser recebido, aguardava na Sala del Anticollegio, de autoria de Palladio.  
No mesmo andar surgem as salas ocupadas pelo Consiglio dei Dicci, que surgia como um comitê de segurança onde os cidadãos suspeitos eram levados após uma espera na Sala della Bussolla, cujo nome advém do fato de a passagem contar com uma porta circulante escondida por uma enorme estante. A Sala Maggiore del Consiglio, sobranceira à laguna – como não poderia deixar de ser – onde tinham assento os nobres de Veneza que ditavam as leis e apontavam os candidatos ao cargo de dodge, chegou a ter, segundo se fala, uma obra de arte da pintura renascentista. Foi destruída pelo fogo retomando a sua dignidade graças à arte de Tintoreto, Veronese e Palma. Estes são apenas alguns dos locais que não se devem perder numa visita ao Palácio dos Dodges, embora nem sempre seja fácil conhecer, à primeira vista, toda a sua riqueza. As sucessivas obras de restauração fazem com que ciclicamente muitas salas sejam vedadas ao público, num monumento onde há tantas curiosidades para conhecer que será cansativo enumerar. Até a cela onde esteve preso e de onde se evadiu Casanova é um local de romaria para muitos.  
Praça de São Marcos – Quem deixa para trás a piazzetta e o Palácio dos Dodges, entra na magnífica Praça de São Marcos. Talvez tenha sido este o caminho seguido por Napoleão após a conquista da cidade-estado, e talvez seja por isso que o Corso afirmou que se trata “da mais bela sala de visitas da Europa”.  
Se a praça é o grande coração da cidade, nunca esquecida em qualquer passeio de fim de tarde, sempre foi local de encontro para os cidadãos venezianos que ali acorreram com a mesma freqüência com que hoje os turistas procuram o refúgio das arcadas por onde se estendem as mais variadas lojas e onde é importante não deixar de fazer uma visita aos cafés Florian ou Quadri, que se espalham em grandes esplanadas e onde à noite não falta a música de várias orquestras, que rivalizam entre si na conquista de ouvintes.  
Um café expresso ou um capuccino, acompanhado com um tramezzino (sanduíche de pão cortado triangularmente) ou uma schiacciata (folhado), para não falar nos sorvetes, têm outro sabor em plena piazza.  
Campanile – As altas torres com sinos fazem parte do cenário da maioria das cidades italianas, sendo na maioria dos casos vistas como uma imagem cívica. Este símbolo não poderia faltar em Veneza, onde a Campanile é a mais antiga e simultaneamente uma das mais modernas edificações da cidade.  
A antiguidade advém de as suas fundações utilizarem os alicerces romanos quando a torre começou a ser construída no século IX. A construção foi muito demorada, só tendo terminado no início do século XVI, da mesma forma que a juventude tem a ver com o fato de a torre ter ruído espetacularmente no dia 14 de julho de 1902.  
Após o acidente, que milagrosamente não causou vítimas, o Conselho Municipal decidiu voltar a erguê-la. A reconstrução foi mais rápida, e a torre, com os seus 99 metros de altura, foi concluída em 1912, sendo uma cópia exata da original, incluindo mesmo os quatro sinos, que anunciavam quatro atividades diárias, que voltaram a ser fundidos.  
Renasceu assim a velha torre que surge em frente da Torre del’Orologio, uma das atrações da cidade, já que se trata de um relógio astronômico construído no final do século XV, encimado pelas estátuas de dois mouros vestidos com peles de carneiro, que, de hora em hora, abatem pesadas barras de ferro sobre um relógio que marca a cadência da vida na cidade.  
Basílica de São Marcos – Construída entre 1063 e 1094, a Basílica de São Marcos é o símbolo de Veneza, para não dizer o espelho da cidade e do seu esplendor, já que sua história está intimamente ligada à cidade. No início foi construída para ser a capela dos dodges, testemunhando o poder e a riqueza da cidade, tendo por isso sofrido obras de ampliação em três épocas distintas. Pra embasar a afirmação de que a basílica é o espelho do poder de Veneza, bastará dizer que o ex-líbris do monumento foram durante anos os quatro cavalos de bronze que os guerreiros venezianos trouxeram de Constantinopla como troféu de guerra em 1204. Estas estátuas, cuja origem divide os historiadores, que lhe dão uma origem grega (séc. IV ou III a.C.) ou latina (séc. IV d.C.), transformaram-se num símbolo tão forte da cidade que Napoleão Bonaparte, após a conquista da cidade, deu ordens para as deslocar para Paris como troféu de guerra, a exemplo do obelisco pilhado no Egito que hoje surge na Place Vendôme, no coração de Paris.  
Hoje, os cavalos que surgem na balaustrada sobre a entrada da basílica são cópias. Contudo, os venezianos tiveram sorte. Se Napoleão foi o ladrão que roubou ladrão, os cavalos que haviam feito parte do saque de Constantinopla acabaram por ser devolvidos a Veneza, podendo ser hoje apreciados no Museu Marciano.  
Mas os cavalos são apenas mais um dos exemplos da ligação entre Veneza e Constantinopla, entre Veneza e o Império Romano do Oriente. No entanto, há muitos outros: num dos recantos da catedral surge um interessante grupo de esculturas do século IV d.C., de origem cretense. Trata-se dos Tetrarcas, representando os imperadores Diocleciano, Maximino, Valério e Constantino.  
Para os historiadores, a ligação de Veneza com o Oriente é identificada pela arquitetura da basílica, que assume a cruz grega coroada por cinco cúpulas (uma ao centro e outras em cada uma dos braços). No átrio, os mosaicos mostram imagens do Antigo Testamento. Uma escadaria conduz ao Museu Marciano (merece uma visita), onde estão expostas verdadeiras esculturas que encantaram Napoleão.  
Mas entre pequenas e grandes histórias que estão ligadas a cada recanto da basílica, para quem é capaz de vibrar com a beleza da arquitetura, o verdadeiro clímax passa por pisar os mosaicos multicores que atapetam o chão numa variedade de cores que só algumas tapeçarias são capazes de igualar, resistindo à tentação dourada das cúpulas cobertas de ouro ou dos mais requintados mármores.  
São estes contrastes que fazem aquilo a que podemos chamar cultura: testemunhar o resultado do cruzamento de culturas, procurando compreender o que o Oriente deu ao Ocidente e, talvez, tentar imaginar até onde se poderia ter chegado sem os radicalismos religiosos de parte a parte. Só que a religião esteve sempre presente nos mundos que confluíram em Veneza. Talvez, por isso, o grande inimigo da Cidade dos Dodges tenha sido os turcos...  
A própria identidade da cidade está encerrada na basílica de São Marcos. São as relíquias do Apóstolo que pregou o nome de Cristo no Egito, tendo morrido em Alexandria, onde foi sepultado. Por volta do ano 800, mercadores venezianos resgataram o corpo. Entre a lenda e a história pode haver grandes diferenças, mas o que restou aponta para que o corpo tenha sido escondido no meio de carne de porco, de modo a evitar a inspeção dos muçulmanos. A relíquia chegou a Veneza em 829. Foi uma excelente manobra política, numa época em que a religião controlava os movimentos da Europa. Graças a São Marcos, Veneza conseguiu rivalizar com Roma, que se orgulhava de ser guardiã das relíquias de São Pedro.  
 
A relíquia chegou a Veneza em 829. Foi uma excelente manobra política, numa época em que a religião controlava os movimentos da Europa. Graças a São Marcos, Veneza logrou rivalizar com Roma, que se orgulhava de ser guardiã das relíquias de São Pedro  
 
Da mesma forma que os britânicos discursavam no Hyde Park Corner, os diletantes franceses passeavam no início do século XX pelos Campos Elíseos.  
Toda a Europa tinha, ou tem, os seus ex-líbris. Veneza não ficou para trás, embora os passeios pela cidade que flutua na laguna do mar Adriático apresentassem uma alternativa diferente. Não tinha carruagens ou os “americanos” (bondes elétricos) que cativavam a Europa. Todos os deslocamentos eram feitos de barco.  
O tempo passou, mas em Veneza nada se alterou. É certo que os grandes veleiros deram lugar a modernos barcos de cruzeiros, mas na cidade que flutua, os passeios são feitos de gôndolas, os táxis são barcos a motor e os ônibus chamam-se vaporettos.  
Em Veneza não há automóveis nem há estradas. Os policiais fazem as patrulhas nos seus barcos; os bombeiros circulam de barco; os alimentos chegam de barco e os detritos são devolvidos nos barcos que criam o tráfego nas vias feitas de água de uma cidade que vive sobre a água.  
Por isso, o Grande Canal, que atravessa a cidade em forma de um S invertido, surge nos seus cerca de quatro quilômetros como uma das artérias mais famosas do mundo.  
Todos os ricos com o seu nome ligado à história da cidade tiveram um palácio com o nome da sua família virado para o Canal. Contrariamente às residências fortificadas que na mesma época foram construídas no continente, nenhum dos palácios venezianos é fortificado. Qualquer deles conta, pelo menos, com duas portas: uma virada para o canal, prevendo amarrações para os diversos barcos que por ali circulam, e outra orientada para terra firme.  
O primeiro andar é sempre considerado um andar de serviços, já que é no andar superior – o piano nobile – que surgem os espaços residenciais.  
O Grande Canal – A zona oeste do Canal chama-se Dorsoduro (dorso duro), porque o solo é relativamente firme. A zona leste, talvez a mais sofisticada e elegante, é conhecida como Rialto (costa alta), sendo aí que surge a zona monumental da cidade.  
Conhecer Veneza passa por ir de Dorsoduro até Rialto, o que pode ser feito num vaporetto ou num dos táxis que surgem acostados à porta de todos os hotéis. Para muitos, aqueles que chegam a Veneza de trem, este é o caminho de chegada, já que liga a estação e a Praça de São Marcos, numa viagem de cerca de 40 minutos.  
Mas se o Grande Canal permite conhecer o ambiente de Veneza, para visitar as duas margens do Canal o melhor é andar a pé, utilizando as pontes que o cruzam.  
A Punta Della Dogana – Numa cidade mercantil, a fronteira – dogana – é um local fundamental. Este vértice da ilha da Giudecca, que aponta na direção da praça de São Marcos, pode ser visto como a entrada do Grande Canal. Foi durante anos o ponto onde os navios atracavam para descarregar suas mercadorias sob o olhar dos oficiais que atribuíam as taxas. No alto de uma torre erguida em 1677 surge um catavento, onde uma figura móvel que simboliza a fortuna dos mercadores se orienta ao sabor do vento sobre um globo terrestre sustentado por dois atlantes.  
Santa Maria Della Salute – Paralelamente ao campanile que se ergue na praça de São Marcos, o posicionamento da igreja de Santa Maria della Salute é, pela sua situação geográfica, um dos monumentos mais fotografados de Veneza.  
Construída em ação de graças pelo final da peste que devastou a cidade em 1630, dizimando um terço da população, continua a ser um local de festa em 21 de novembro, o Dia da Madonna della Salute.  
A nave octogonal foi desenhada por Baldassare Longhena, que seguiu a orientação de outras igrejas dedicadas ao culto mariano.  
Ponte de Rialto – A circulação em Veneza foi feita durante séculos através de pontes de madeira. Uma das primeiras grandes pontes de pedra a ser construída teve decidida a sua construção em 1524, tendo o projeto sido pedido a vários especialistas.  
Diz-se que entre os projetos apresentados à cidade surgiu um assinado por um certo Miquelangelo. No entanto, a obra foi entregue a António da Ponte, numa época em que vários conflitos arrasavam a península italiana, o que causou diversos atrasos.  
A obra apenas se iniciou em 1588, tendo sido concluída quatro anos depois. Surgiu assim a ponte de Rialto com o seu arco único com 28 metros sobre o Grande Canal, elevando-se a 7,5 metros de altura.  
Ca’D’Oro – Se ao longo do Canal se multiplicam diversos palácios, alguns dos quais transformados em hotéis, outros adaptados a colégios e universidades, há ainda alguns que continuam a servir de residências.  
A descoberta de todos os palácios faz parte do desafio que representa viajar ao longo do Grande Canal, seja de vaporetto seja de gôndola.  
No entanto, há um edifício que merece uma visita especial, pois sua arquitetura marcou muito do futuro das edificações que seguiram ao longo dos anos. Falamos do Ca’D’Oro.  
Ninguém tem uma idéia exata sobre a origem do nome – Palácio de Ouro. Há quem diga que no século XV partes da fachada estavam cobertas com o precioso metal. Outros dizem que o edifício tenha sido mandado construir pela família Doro. Mas se do passado pouco ou nada se sabe, no presente este palácio continua a ser admirado pela sua grande elegância, feita de uma assimetria pouco comum ao estilo gótico que lhe deu origem. É um dos melhores exemplos do chamado gótico-florido que nasceu em Veneza e que influenciou a arquitetura da cidade que flutua sobre o mar Adriático.  
 
Se hoje as gôndolas são um dos grandes ex-líbris de Veneza e o gondoleiro remando ao pôr-do-sol, empoleirado na popa do longilíneo barco, entoando “O sole mio”, fazem parte do imaginário de muitos que sonham com a cidade que flutua sobre o mar Adriático, estes barcos fazem parte da história da cidade.  
Sendo longilíneos, permitiam aumentar a capacidade de carga e ao mesmo tempo avançar nos mais estreitos canais que garantem as comunicações no centro da cidade, da mesma forma que o seu remo posterior evita as dificuldades de progressão no meio da “rede viária” de Veneza.  
Pouco se sabe da origem do design destes barcos, tradicionalmente de um negro brilhante, que cruzam os canais. Diz-se que a sua forma se inspira na cornucópia, símbolo de fortuna e abundância. A cornucópia dos dodges que governaram Veneza é também um dos símbolos da cidade.  
De simbolismo em simbolismo, os seis dentes que surgem na proa de cada gôndola referem-se aos bairros em que está dividida a cidade, da mesma forma que o dente que aponta em direção da popa representa a ilha de Giudecca, a mais próxima do coração de Veneza.  
Passeios turísticos  
Utilizados como meio de transporte ao longo de séculos, hoje estão a serviço dos turistas, sendo um meio de transporte tão agradável como dispendioso, o que exige que antes de qualquer viagem pelos canais seja mais do que aconselhável discutir antecipadamente o tempo da viagem e o preço – sempre negociável – a pagar.  
Em face disto, torna-se difícil apontar um preço médio. Tudo depende da lei da oferta e da procura e da capacidade de negociação do cliente com o gondoleiro. Talvez por isso os turistas americanos e japoneses sejam os preferidos dos homens do remo...  
Um passeio de gôndola pode ser uma experiência romântica. Ninguém duvida, mas também tem o seu (alto) preço, sobretudo se acontecer ao cair da noite, quando os valores estão mais inflacionados pela procura.  
Uma gôndola pode transportar seis pessoas, o que ajuda a dividir a despesa. Perde-se em romantismo o que se ganha em custo. Esquecendo as questões ligadas ao dinheiro, uma viagem ao pôr-do-sol, num dia calmo, será sempre uma recordação inesquecível, sobretudo nos canais recônditos da cidade aonde não chega o ruído dos barcos a motor. Aí, ao som dos remos batendo na água ecoando nas gargantas estreitas criadas pelos edifícios, pode descobrir-se uma Veneza diferente. Mais humana e mais acolhedora, capaz de nos permitir vagar sobre as ondas da nostalgia, do passado de grandeza, de uma cidade que dominou o Mediterrâneo.  
Qualquer passeio por Veneza começa quase sempre pela praça de São Marcos, essa grande sala de visitas da cidade onde as esplanadas se estendem em frente ao café Florian ou ao Quadri. Um capuccino ou um sorvete saboreados em companhia do som melodioso de peças clássicas executadas por vários músicos são tônicos revitalizantes antes de qualquer passeio.  
De acordo com os venezianos, para conhecer a praça de São Marcos é necessário um dia, e para visitar um pouco mais da cidade é melhor reservar dois ou três dias. Só assim é possível ter tempo para atravessar a ponte de Rialto na direção da Academia, a igreja de Santa Maria della Salute e a Dogana, um local de visita privilegiado da entrada do Grande Canal e da piazzetta.  
O melhor caminho para chegar à ponte de Rialto – talvez a mais famosa das 446 – segue pela Mercerie, uma rua cujo nome advém do seu incontável número de lojas (mércer significa mercadoria), mas também de pequenos mercados a céu aberto onde se vende quase tudo, desde os postais ilustrados a antiguidades mais ou menos autênticas.  
As lojas são tantas que ocuparam mesmo a própria ponte que atravessa o Grande Canal, sendo a principal ligação entre as duas margens. Rialto cresceu com Veneza: começou sendo de madeira (no século XII), mas a sua utilização exigiu que em 1591 fosse construída em pedra a primeira das seis versões que já assumiu.  
A ponte é um mirante ideal sobre a confusão do tráfego da cidade, onde um sem-número de gôndolas se cruzam com os vaporettos e os mais diversos barcos de carga que abastecem a cidade. Veneza pode não ter automóveis, mas nem por isso está livre de engarrafamentos...  
Mas a confusão não se restringe ao mais saturado canal da cidade. Atravessar a ponte de Rialto pode ser uma experiência única, tantas são as pessoas que por ali se cruzam. Mas este é também o único caminho para quem pretende visitar a Academia em cuja galeria estão expostas as mais requintadas obras de arte venezianas: quadros de Giovanni Bellini, Marco Basaiti, Andréa Mantegna, Giorgione, Lorenzo Lotto, Venorese e tantos outros.  
O classicismo das obras expostas na Academia contrasta com as obras de arte do século XX da coleção de Peggy Guggenheim, que surgem na casa onde ela viveu desde o fim da guerra até à morte.  
Deslumbre – Percorrendo as labirínticas ruas da margem direita do Grande Canal não se pode permanecer impassível à beleza de todos os palácios que se estendem pelo caminho. A originalidade da sua arquitetura gótica é deslumbrante, fazendo-nos esquecer os passos que conduzem até a igreja de Santa Maria della Salute, construída em 1630 em ação de graças pelo fim da peste negra que vitimou a cidade.  
Um pouco mais à frente surge o edifício da Dogana (alfândega), onde os barcos dos mercadores venezianos se detinham para pagar as taxas sobre as ricas mercadorias que fizeram a riqueza da cidade. Vale a pena para à sombra do imponente cata-vento dourado que surge no pináculo do edifício e observar a magnificência da entrada na piazzetta e o Palácio dos Dodges.  
De regresso à margem esquerda, deixando-nos perder no verdadeiro labirinto que é Veneza, subindo escadas, atravessando pontes, descobrindo ruas estreitas e sombrias, não dá pra perder uma visita às mais famosas igrejas da cidade: São Zanipolo, São Zacarias, São Sebastião e São Giorgio Maggiore, onde do alto da torre do relógio pode-se desfrutar de uma das mais belas vistas da cidade


Veneza é uma cidade que desperta paixões. Durante séculos, seus habitantes construíram suas casas sobre estacas enterradas no lodo da laguna, transformando os canais em ruas e avenidas. Nasceu assim uma cidade-estado que viveu o fausto de um porto privilegiada dos viajantes que chegavam à Europa vindos do Oriente. É esse passado de riqueza que hoje justifica a visita à cidade flutuante
O Grande Canal é a artéria principal de Veneza. Aí se cruzam barcos de transporte, gôndolas, os vaporettos (transporte coletivo) e os táxis, no meio de um grande movimento
A cultura bizantina marcou o passado em Veneza
O coração da cidade
O coração da cidade
O Palácio dos Dodges surge imponente na entrada do Grande Canal
O Campanille, que se ergue na praça de São Marcos, eleva-se a 99 metros de altura, sendo um dos melhores mirantes da cidade. A torre foi construída sobre ruínas romanas no século XVI e ditou o ritmo da vida da cidade, já que os seus cinco sinos marcavam o tempo de cinco atividades profissionais. No entanto, a atual é uma réplica da original, que ruiu em 1902
À entrada do Grande Canal, no lado contrário à praça de São Marcos, surge o palácio da antiga Dogana (alfândega), onde os mercadores pagavam os seus tributos. Muito perto surge a igreja de Santa Maria della Salutte, erguida em ação de graças pelo fim da mortandade causada pela peste negra
Na margem do Grande Canal, multiplicam-se os cafés e restaurantes como estes que surgem junto à ponte de Rialto
Vagando pelos canais
Os seis dentes que surgem na proa de cada gôndola referem-se aos bairros em que está dividida a cidade. O dente que aponta em direção da popa representa a ilha de Giudecca
Passear sem destino

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