Vidabrasil circula em Salvador, Espírito Santo, Belo Horizonte, Brasília, Rio de Janeiro e São Paulo Edição Nº: 307
Data:
30/5/2002
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eleitor passivo?
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Entrevista

O movimento pré-eleitoral capixaba sofreu uma reviravolta nos últimos dias, com a desistência do deputado federal João Carlos Coser de concorrer ao governo pelo PT para disputar uma das duas vagas na representação do Estado no Senado. Uma decisão que vai além da questão de chances de chegar ao Palácio Anchieta, que ele admite que eram poucas, mas que passa por uma estratégia do seu partido de reforçar sua bancada no Congresso Nacional, confiante que está em que Lula será eleito presidente da República.  
João Coser, 46 anos, tem uma história peculiar. Nascido em uma família de descendentes italianos de Santa Teresa, na região serrana central do Estado, teve outros 11 irmãos naturais e um adotivo. Nasceu gêmeo com Luís Carlos, que morreu de congestão com pouco mais de um ano. Não passou fome, mas já teve que dividir um ovo com um irmão.  
Foi criado na roça até os 18 anos, puxando enxada, amansando bois, arando a terra. Conheceu Vitória e a água do mar aos 17 anos. Sonhava em ser caminhoneiro, ter um caminhão maior do que os dos irmãos e sobrinhos. Veio morar na casa de um irmão antes dos pais se mudarem para Itararé, onde envolveu-se com os movimentos eclesiais de base da Igreja Católica, onde aprendeu política. Foi discípulo de Frei Betto. O primeiro emprego deve ao sobrenome da família rica, mas depois virou líder sindical dos comerciários. Estudou, concluiu o segundo grau, cursou Direito e faz pós-graduação em Direito Público.  
Ajudou a fundar o PT há 23 anos, elegeu-se deputado estadual em 1986, reelegeu-se em 1990, virou deputado federal em 1994 e reelegeu-se em 1998. Tem pouco tempo para os  
dois filhos e a mulher, mas sonha  
com o Senado para, segundo ele,  
não apenas formar a base de apoio a um eventual governo de Lula,  
mas principalmente dar ao Espírito Santo a representatividade que merece e que anda meio esvaziada.  
 
– Deputado, por que o senhor deixou de ser candidato a governador para candidatar-se a senador?  
– Foi uma avaliação de grande parte da militância e da direção estadual, que acha que um mandato no Senado Federal é importante para contribuir na sustentação do governo federal, principalmente se for o Lula, e depois a chance de ganhar uma eleição é maior. Além disso, com a possibilidade de um mandato, eu poderia contribuir mais com o Espírito Santo. Pela minha atuação, minha experiência, e o quanto gosto de trabalhar pelo Espírito Santo, minha presença no Senado possibilitaria que eu ajudasse muito ao meu Estado. Eu quero ser o elo de ligação entre o governo federal e o Espírito Santo.  
– Como fica a questão do palanque para o Lula no Estado? O PT vai ter um candidato efetivo ao governo, ou de alguma forma vai ter um laranja e trabalhar por outra candidatura ao governo?  
– Em nenhuma hipótese o PT vai trabalhar com laranjas. Vamos fazer um debate sobre o que é melhor para o projeto nacional do PT, discutir um programa de governo, incorporá-lo ao Estado e a maioria do partido vai tomar a decisão. Se esta for uma decisão por uma aliança, ela será assumida politicamente, com protocolo, dentro da legalidade política, assumida em palanque. Se for candidatura a candidatura própria, temos quadros partidários, um deles será designado, será respeitado e vira mesmo o candidato.  
Sou um dos que acham que o palanque mais amplo depende de uma aliança partidária. O Lula e o José Dirceu (presidente nacional do partido) já defendem há muito tempo a ampliação dos palanques nos Estados. Isto só não está se dando de forma mais aberta hoje em função da verticalização.  
– O PT tem até um desempenho bom no meio da classe média, em cidades como Vitória, mas há maior resistência no interior. Até mesmo com o Lula há maior resistência. Como o senhor pretende romper essa barreira no Estado?  
– Para a candidatura do Lula, estamos fazendo pesquisas e analisando, e de fato nas cidades do interior ele tem uma penetração um pouco menor. É natural em função da formação do cidadão do interior, que tem um certo preconceito do PT devido a uma imagem da fase de construção do partido e da falta de informação da população. Minha rejeição, por exemplo, quase não existe...  
– Mas o senhor não acha que isso está vinculado mais à sua imagem pessoal?  
– Por isso é que trabalho com uma certa tranqüilidade uma campanha para o Senado. O trabalho que fiz em dois mandatos de deputado estadual e dois de deputado federal me permite hoje circular em todos os municípios, e ser votado em todos eles. E essa relação é tanto junto aos empresários, à classe média e em setores do movimento social, nas comunidades, nas escolas.  
Para surpresa de muita gente, muitos prefeitos e entidades sociais e empresariais já se comprometeram a apoiar minha candidatura. O desafio é entrar nos bairros da periferia e nos pontos mais distantes do interior, mas a candidatura terá lastro para isso.  
– O senhor acredita que aqui  
no Espírito Santo o PT possa fazer o governador?  
– As eleições são um desafio. Em Colatina, o candidato que estava em último lugar acabou ganhando a eleição na última semana. Mas o meu sentimento é que a disputa pelo governo do Estado está meio distante do PT, isto é, o partido não é a bola da vez. Os dois candidatos que estão se colocando em nossa linha são de valor pessoal e político, o senador Paulo Hartung e o ex-governador Max Mauro, e o PT entrar nesse processo hoje, mantida a candidatura do governador José Ignácio, o espaço é limitado. Agora, acreditamos que na campanha do Lula dá para fazer um debate aqui no Estado.  
– Agora, quem tem carisma no partido para disputar essa eleição ao governo?  
– Eu sou até suspeito, porque defendo que o PT deva se aliar a outro bloco partidário porque precisamos ampliar a participação na Assembléia Legislativa e no Congresso Nacional, para ajudar o Lula a governar o país, e ajudar a viabilizar o Espírito Santo. Acho que é o papel que o PT tem que desenvolver hoje, mas se o partido decidir por uma candidatura temos a Iriny Lopes, que foi pré-candidata em Vitória e tem capacidade de debate.  
– Mas ela tem carisma?  
– É difícil dizer, porque ela não passou pelo batismo das urnas. Mas temos também o Perly Cipriano, que já concorreu ao próprio governo e pode concorrer de novo. Isto é, quadros nós temos. Mas essa é uma questão difícil, porque tocar no coração das pessoas e levá-las a votar é um grande desafio.  
No meu caso, agradeço sempre a Deus e aos amigos a confiança e o carinho. No mandato do Vitor Buaiz, fizemos cinco deputados estaduais e um federal. Quando o José Ignácio se elegeu, dos cinco apenas um conseguiu voltar, que foi o Cláudio Vereza, e eu fui de 21 mil para 48 mil votos. Eu subi quando o PT estava em declínio. Por isso meus passos são dados com muito cuidado.  
– É passar pelo Senado para disputar o governo?  
– Fui deputado estadual por dois mandatos, federal por dois mandatos, está na hora de chegar ao Senado. Chegando lá, quem sabe, fazendo um bom trabalho eu possa me habilitar ao governo.  
– Pelo que falam seus amigos e inimigos, seu raciocínio foi prático: para o governo, dificilmente seria eleito. Então, optou pelo Senado para ser eleito.  
– De fato, uma eleição para o governo, mesmo com o meu nome, seria muito difícil. Para o Senado não é nomeação. Vamos ter que disputar, mas espero muito da população e acho que contribuiria com o Estado se fosse eleito.  
– O PT lá de fora ajuda o PT daqui?  
– Ajuda muito. O Lula, o José Dirceu e a maioria absoluta da bancada federal acham que precisamos mandar para Brasília pelo menos um deputado federal e um senador. Eles vão contribuir muito para que isso aconteça. Politicamente, com a presença de lideranças importantes e, financeiramente, dentro dos limites do PT. Eu espero poder fazer uma campanha de boa aparência, com propostas, discutindo o papel do Senado, que não é o mesmo da Câmara.  
O Senado tem uma força muito grande. Na Câmara, é desproporcional: temos dez do Espírito Santo e 90 de São Paulo. No Senado, não. O senador é um terço da representação do Estado e o senador do Espírito Santo tem o mesmo peso do senador de São Paulo. Precisamos ter lideranças com capacidade de incorporar a bancada federal e evitar os conflitos entre o governo do Estado e federal para gerar oportunidade de vida para o cidadão capixaba.  
Não disputo eleição pensando em ter mais um mandato. Não tem sentido. O objetivo é saber o que posso contribuir para o meu Estado.  
– Evitando os conflitos?  
– É, porque o político com mandato tem uma dose de vaidade muito elevada, pouca paciência, ciúmes. É preciso ter capacidade para, mesmo na adversidade, se relacionar com as pessoas que pensam diferente, enfrentar o debate político, mas não abrir mão de contribuir com seu Estado.  
Eu sou deputado do PT, estou na comissão de orçamento coordenando a bancada capixaba e tenho conseguido unificar a bancada nessa ação parlamentar, trazendo recursos para praticamente todos os municípios capixabas, para os órgãos federais e mesmo com o governo do Estado, obedecidas as limitações da Câmara dos Deputados.  
– Deputado, o senhor disse que seu desejo pessoal seria que o PT se aliasse a um outro bloco partidário nas eleições de governador. Qual bloco seria esse: Paulo Hartung ou Max Mauro, com quem o senhor teve uma reunião longa recentemente?  
– O bom dessa entrevista é que só tem perguntas fáceis (risos). Estamos discutindo isso com muita cautela. O PSB sempre foi aliado estratégico do PT. Estávamos discutindo aqui num bloco com o PDT, PSB, PC do B, PT e PMN e tudo mudou. O senador Paulo Hartung estava no PPS, o Sérgio Vidigal já declarava apoio à minha candidatura, mas hoje o PSB tem um candidato, o senador Paulo Hartung, o PDT está em outro bloco com Max Mauro.  
Não posso falar qual o bloco porque estamos conversando com os dois grupos. Tudo depende de fatores nacionais. Se a candidatura de Ciro Gomes (PPS) a presidente não se viabilizar, o bloco do PDT-PTB passa a ser aliado importante, é uma chapa para a Câmara dos Deputados, Assembléia Legislativa e para o governo.  
Se Garotinho não se viabilizar como candidato a presidente da República, e esse debate existe no PSB, o partido se aproxima do PT e pode até indicar o vice do Lula. Assim, temos possibilidade de nos aliarmos ao PSB. Mas isso será fechado no encontro de junho e, possivelmente, nos últimos dias do prazo para registro de candidaturas.  
Então, o PT vai se concentrar na campanha de Lula, de deputados estaduais, deputados federais, e lá na frente vamos decidir a política de alianças para o governo, ou se vai com candidatura própria.  
– Mas, se dependesse da sua vontade, a qual dos dois o PT apoiaria aqui no Estado? Qual dos dois tem o passado que melhor influencia nesse apoio?  
– Veja como a política é difícil. Quando eu estava como pré-candidato no PT, essa condição era porque o Paulo e o Max estavam juntos e queriam fazer uma nomeação ao governo do Estado e nós achávamos que precisava haver uma disputa, a sociedade merece ter opções. Entrei como essa alternativa, com o apoio do PSB, que hoje está com o Paulo, e do PDT, que hoje está com o Max.  
O passado conta, mas o movimento que as pessoas fazem é tão violento que desarruma tudo.  
– Mas, pessoalmente, qual o passado que conta mais, Hartung ou Max?  
– Não é pessoal, o que vai contar é política. Como presidente do PT tenho uma tarefa designada pelo Lula e pela direção nacional de continuar conversando com os dois, porque precisamos do apoio deles no primeiro turno, mas principalmente no segundo turno. Então, quero fazer nossa campanha causando o mínimo de constrangimento possível. Se lá no final fizermos uma opção, será a opção possível. Vou ficar devendo essa resposta.  
– Acho que sou meio infantil nisso, mas nunca consegui entender essa coisa parecida com milico: o sujeito não pode ter idéia própria, tem que seguir a idéia do partido (Milson). Cadê a sua vontade própria?  
– A política muitas vezes coloca quem dirige em situação delicada. Qualquer fala minha, na condição de presidente do PT, principalmente agora deixando a candidatura ao governo, pode melindrar. Lógico que você sempre tem preferências pessoais, amizade, avalia quem é melhor para o desenvolvimento do Estado, tem qualidades éticas e morais. Acredito que os dois candidatos têm qualidades e valores individuais, mas não vou citar nomes para não avançar o sinal, o que não contribuiria com o processo hoje.  
– A divergência do Vitor Buaiz com o PT não foi exatamente porque resolveu ter opinião própria?  
– A vontade própria sempre conta e a gente sempre que pode expressa. Minha decisão de ser candidato ao Senado era pública. Quando cheguei no meu limite, disse que não seria candidato ao governo, mas ao Senado, porque acho-a melhor. Depois dos 45 anos você já não se permite aventuras.  
Agora, o caso do Vitor foi diferente. No segundo turno o Lula já não pôde vir ao Estado e eles foram buscar o apoio do Fernando Henrique. Então, já estava sinalizada a tendência. Depois que o partido saiu do governo, ele se enrolou mais. Hoje não existe mais o desgaste e a rejeição em função do governo do Vitor. A sociedade entendeu que o Vitor fez uma opção pessoal e não um governo que foi prometido à população.  
Quando nossos próprios deputados fizeram denúncias contra o governo do Vitor foi porque achávamos que ele não teria chance de sucesso. E o Vitor resolveu tocar do jeito dele, e no final não foi bom nem para o Estado e nem para ele, que antes era um cidadão respeitado.  
– O senhor acha que o governador José Ignácio ainda vai pesar nesse processo eleitoral?  
– Nunca se pode subestimar adversários. No caso específico do governador, a candidatura dele tem dois papéis: primeiro, da autodefesa. Como bom advogado, não vai querer sair desse processo como saiu o Vitor e o Albuino, escurraçados. Ele vai querer ter um palanque e um horário eleitoral para se defender e defender sua família.  
O segundo objetivo é que ele vai tentar obter um percentual de votos suficiente para levar a eleição para o segundo turno e, então, negociar e interferir nas eleições. Acredito que o governo do Estado ainda tem peso, apesar de ser relativo e muito menor do que seria se ele estivesse numa situação melhor. A imagem do governo e do governador é muito ruim, é o que sinto na rua.  
– Para que lado ele vai pender no segundo turno?  
– Quando você entra numa disputa é por prazer ou por ódio. Por prazer, você entra para construir e ajuda. Por ódio, é para destruir aquele que você considera seu adversário principal. Nesse ponto, acho que o adversário principal do governador José Ignácio é o senador Paulo Hartung. Ele identificou e incorporou isso, e acho que fará tudo o possível para tentar prejudicar o senador.  
– Então, essa história de que o Max é por ódio...  
– O Max é um político com uma forma diferente da nossa na hora de fazer política. Ele é muito sistemático nisso, quando identifica seu inimigo bate pesado nele. Não vou dizer persegue, porque isso é muito forte. Mas ele é muito determinado. Se por um lado isso é negativo, porque você não deve se deixar levar pelo ódio – quem tem que construir coisa boa é o coração, o amor, o sentimento fraterno –, por outro lado é positivo pela determinação de combater o mal. Ele tem essa convicção. Não pode ter um governador frágil, frouxo, porque não muda nada.  
Há um anseio na sociedade por uma pessoa corajosa, honesta. Acho que o Max disputa essa eleição pau-a-pau. A eleição de governador não está resolvida.  
– Deputado, em 1989, quando o Lula tinha chances reais de ser presidente, o Mário Amato deu aquela declaração de que 800 mil empresários deixariam o país. Era a voz das elites nacionais. Agora, com o Lula de novo favorito, vêm os bancos estrangeiros fazendo terrorismo sobre redução de investimentos. Quer dizer, mudou apenas o porta-voz. Qual a avaliação que vocês fazem disso?  
– Felizmente essa questão com o empresariado nacional está superada, e isso nos deixa felizes. Porque queremos fazer um governo para os brasileiros, os empresários, trabalhadores, de forma especial os mais simples, que estão sem esperança. Nosso governo tem uma linha, um destino.  
A declaração do Mário Amato na época foi uma infelicidade, mas demonstrava  
um pouco da ansiedade dele. O PT não tinha muita experiência administrativa e nem era maduro. Hoje é mais maduro, governa 180 cidades, seis ou sete capitais, cinco estados. Tem uma experiência administrativa riquíssima. A maioria dos prêmios de qualidade administrativa no Brasil são para governos do PT.  
Erros que eram passíveis de se cometer no passado não se vêem mais. Agora, é triste para o cidadão ver que o único setor que ganha dinheiro é o banco e os banqueiros internacionais se sentem no direito de vir aqui querer interferir no processo eleitoral. Isso é uma agressão à nação, ao cidadão brasileiro.  
– Isso pode despertar um sentimento de nacionalismo, que tanto falta no país?  
– Pode, e a gente já ouve nas ruas as pessoas questionando porque esses bancos têm tanto interesse em controlar o governo. Pode haver esse sentimento de defesa do país e também a visão de que esse projeto que está aí só interessa aos grandes. E eu fico feliz porque não apenas o Lula reagiu a isso, mas o próprio Pedro Malan, ministro da Fazenda, e outros candidatos. Até o Delfim Netto disse que os banqueiros deveriam acreditar no PT e no Lula, porque seria quem mexeria menos na política econômica.  
O PT não fará mudanças abruptas no primeiro momento, porque o mercado na área econômica é muito sensível, hoje o mundo é globalizado e o dinheiro migra muito facilmente. Mas os banqueiros ficam preocupados com a possibilidade de não ganharem tanto quanto ganham hoje. A poupança paga 0,7% e os bancos cobram de 7 a 10% quando te emprestam.  
– Até que ponto o MST atrapalha o PT?  
– O nosso projeto nacional é à brasileira, para incluir 50 milhões de brasileiros que estão fora do mercado de consumo. Aí vem desde a geração de empregos até programas de renda mínima, idealizados pelo senador Suplicy. Os movimentos sociais não atrapalham porque, se tivermos uma vontade política mínima de fazer a reforma agrária, o MST não terá espaço. Os assentados que necessitam de terra não são em quantidade tão elevada.  
Nossa posição é a seguinte: propriedade produtiva o PT não admite a ocupação ou a expropriação, não importa se for pequena ou grande. Se for grande e improdutiva, estiver lá com fins especulativos, tem que ser desapropriada para cumprir função social.  
Se isso for feito pelo Estado, o MST vai ajudar localizando quem precisa de terra para cultivar. Quem mais transmite tranqüilidade nessa área são os governos do PT. No Rio Grande do Sul foram assentadas 4 mil famílias e não tem conflito. É o Estado onde o Pronaf mais investe. Temos que dar os exemplos positivos. É preciso distribuir a terra, mas garantir preço mínimo, comercialização, transporte, agregação de valores com a industrialização.  
– Não tem alguém por trás do MST fabricando excessos para prejudicar o PT?  
– O MST é um movimento autônomo, não consulta o PT e nem a ninguém para suas ações. Não acho que esteja fazendo coisas encomendadas. Ficamos preocupados com aquela invasão da fazenda do presidente em Minas. O que há é que o MST identifica o período eleitoral como o de maior sensibilidade dos governantes, por isso usa esse período para fazer invasões. É muito difícil um governador candidato a reeleição colocar a polícia para tirá-los de qualquer lugar. É uma questão de oportunidade.  
– Isso pode atrapalhar o Lula?  
E a imprensa com o PT, como é?  
– O exagero sempre atrapalha, mas só existem os conflitos porque a reforma agrária não é feita na normalidade. A luta pela democratização da terra é legítima, mas os excessos atrapalham.  
Quanto à imprensa, ela trata o PT com muito respeito. É verdade que ela é formada por seres normais presentes na sociedade e alguns exageram. Essa avaliação dos bancos estrangeiros, por exemplo, é exaustivamente repetida sem sentido.  
– Mas não há uma orientação dos patrões? Porque a imprensa tem dois lados: tem o jornalista na redação mas tem também o interesse dos patrões, do dono do veículo.  
– Eu não estou acusando o jornalista. A regra é a imprensa ser importante para o país, socializa, democratiza as idéias. Não temos nenhuma reclamação da imprensa, nem dos pequenos jornais e nem dos grandes. Muito menos da imprensa capixaba, que tem opinião, mas respeita nosso trabalho. Acho que a imprensa só contribui para com o processo democrático.  
Os profissionais de imprensa nos apertam, porque são preparados para isso, e isso é bom para a gente. Se o político não estiver preparo, eles te pegam na primeira esquina. A imprensa cresceu muito nessa área política.  
– Deputado, o Lula quando era feio perdeu as eleições que disputou. Mas agora o Lula está bonitinho, sorridente, engravatado. O PT cedeu ao marketing político?  
– O marketing faz parte. É uma falta de inteligência não usar os recursos da ciência. O cidadão quando olha para seu representante quer uma boa imagem. O que o Lula com certeza não abrirá mão é de suas qualidades pessoais. Fazer a barba, estar penteado, usar terno, faz bem. Ele é um líder operário, que veio dos movimentos de 79, 80, é um brasileiro na essência, mas hoje está se dispondo a ocupar uma função pública que precisa de um homem de paletó e gravata.  
– O senhor falou dos bons exemplos de administração que podem ajudar o PT. Os maus exemplos podem atrapalhar?  
– No caso dos governos do Estado, é possível que atrapalhem. As pesquisas mostram que a população liga o desenvolvimento do governo com a eleição presidencial, não liga direto à prefeitura. As prefeituras são ligadas ao governo do Estado. Há exceções: prefeituras grandes como São Paulo e Porto Alegre, se estiverem mal, interferem. Mas atrapalham mais aos candidatos a governo do Estado.  
A gente percebe que o Brasil hoje  
quer um projeto de futuro para o país, as pessoas não se apegam às questões paroquiais, localizadas.  
– Ainda há sectarismos no PT?  
– Existe. Há gente que acha que a pessoa só é boa se está no PT. Mas isso está mudando muito, o que não elimina o questionamento.  
– Quem seria o grande parceiro internacional do Brasil num eventual governo do PT?  
– O Brasil tem relações abertas com o mundo e isso não se corta na posse de um presidente. Vamos continuar tendo relações normais com os parceiros comerciais, como os Estados Unidos. Nossa intenção é fortalecer o Mercosul.  
– Mesmo com a crise na Argentina?  
– Tem jeito. A Argentina está vivendo uma crise não previsível há três anos.  
Não podemos sentir orgulho de estarmos fortes e a Argentina mal. Precisamos da Argentina forte, para fortalecer o Mercosul. As relações com a Europa tendem a se fortalecer.  
– Mesmo com a Europa "endireitada" como está hoje?  
– Mas é uma relação institucional e comercial. No campo da cultura a Europa vai continuar sendo a Europa. Vamos continuar dependendo da França, da Inglaterra. A Alemanha cresce numa velocidade incrível. E o Brasil está criando suas relações com o Japão. Nada disso é problema para o PT. Pelo contrário. Temos como visão o Mercosul, porque o Brasil não tem que entrar num projeto subordinado, daí nossa diferença com os Estados Unidos em relação à Alca, porque eles querem o Brasil aderindo a um projeto americano e que entre com pouca dignidade.  
Tivemos um péssimo exemplo agora, para quem quer construir a Alca, que foi o caso do aço. É lamentável que os Estados Unidos tenham tomado essa atitude de proteger aquela velharia que são as usinas americanas. Eles exigem o inverso do que fazem. O que o PT não admite é entrar numa relação dessa subordinado. Quem quiser consumir, comprar, investir no país, será muito bem-vindo.  
– Quando pequeno, a gente aprende que Tiradentes foi um grande herói. Depois que a gente cresce descobre que por trás dele haviam os intelectuais. O Lula tem um pouco disso? Há um grupo de intelectuais por trás dele? Porque ele não tem essa formação universitária...  
– Eu falo com muito carinho e até emoção, porque conheci o Lula em 80. Quando ele veio aqui fazer a atividade política dele só tínhamos uma Brasília azul, velhinha, minha, e fomos fazer um comício no lixão de Maria Ortiz. O Lula realmente é um homem simples, vindo do Nordeste, mas de uma percepção social e humana invejável.  
Mas é verdade: o Lula talvez hoje seja o presidenciável com maior número de pessoas por trás dele. As universidades, os institutos, há muita gente contribuindo com os projetos e propostas de governo do PT. O Instituto de Cidadania é um centro de produção de projetos. Temos gente só produzindo idéias, sem se preocupar com a campanha.  
O Lula é um símbolo e, por ter essa capacidade e essa empatia com o povo, porque é a essência da expressão do povo, tem uma equipe muito grande por trás. Um governo dele será fruto de sua sensibilidade, mas com um trabalho intelectual e científico muito grande.  
– Onde você nasceu? Você e o Lula têm muita coisa em comum.  
– Eu nasci em Santa Teresa, onde hoje é São Roque do Canaã, e só vim a conhecer Vitória com 17 anos. Vim conhecer água salgada. Trabalhei no cabo de enxada até os 18 anos.  
– Mas já era politizado lá?  
– Não, era bem alienado. Mas, por ser de uma família italiana, muito católica, tinha muito essa repressão da Igreja. Mudamos para Vitória e fomos morar em Itararé, onde havia uma Comunidade de Base (CEBs) muito ativa. O bispo era Dom João Batista e reforçava essas comunidades. E aí, eu comecei a participar.  
Vim trabalhar no comércio, depois meus pais vieram para cá. Fiz o segundo grau aqui. No primeiro ano fiquei morando na casa de um irmão em Campo Grande, e vinha trabalhar na Vitoriawagen. Depois, meus pais vieram para cá. Eu saía 6 horas da manhã de casa, levando marmita debaixo do braço, trabalhava e ia para a escola, chegando em casa tarde da noite.  
– O sobrenome te ajudou em alguma coisa? (ele é Coser, como os donos da Vitoriawagen e da Coimex, uma das maiores exportadoras do país)  
– Talvez no primeiro emprego, sou primo do Otacílio. A Vitoriawagen ainda era uma empresa familiar. Na escola, eu não sabia se prestava atenção na professora ou na barriga que roncava de fome. Terminei o segundo grau assim.  
– Você alimentava o sonho de quando crescer ser o quê?  
– Meu sonho era comprar um caminhão. Tenho irmãos e sobrinhos caminhoneiros. Meu sonho era ter um caminhão maior do que o deles.  
A família é muito humilde. Nunca passei fome, mas já tive necessidade de dividir um ovo com meus irmãos. Mas sou muito grato a Deus pela minha vida.  
– Seus pais já alcançaram você com o sucesso político?  
– Minha mãe, Tarcisa Corteletti Coser, tinha uma sensibilidade incrível, mas morreu antes de eu ser deputado. Quando eu lia o Evangelho na igreja de Itararé era a semana mais feliz da vida dela, mas não me viu deputado. O meu pai, Luís Coser Silva, me ajudou a me eleger. Eu tenho uma imagem dele em vida, no aniversário de um ano de minha vida. Ele foi filiado ao PT.  
– Você se casou antes de ser deputado?  
– Não, quando me casei já era parlamentar. Tenho 13 anos de casado com Eliana Mara, temos dois filhos, a Carla, com 11 anos, e o Luís Carlos, com cinco. Uma homenagem ao meu irmão gêmeo, ao avô, e ao pai. Minha mulher é filiada ao PT, mas não milita. Ela trabalha há 12 anos no Tribunal de Contas, mas não tem militância.  
– Como é o ser humano João Carlos Coser?  
– Gosto muito de ficar em meu canto. Concluí minha faculdade de Direito e estou fazendo pós-graduação em Direito Público. Minha leitura é nessa área. Tenho um sitiozinho em Timbuí e gosto de ir para lá, mexer na terra, com os animais, porque quando era criança amansei boi, arei terra, que é muito mais fácil e prazeroso do que disputar eleição.  
– Veja se, sendo eleito, faz alguma coisa para projetar o Espírito Santo pelas coisas boas e não pelas ruins, porque ninguém conhece nosso Estado.  
– Nossos senadores são inexpressivos no Congresso, precisam aparecer mais. Acho que falta uma liderança, alguém que represente bem o Estado. Tenho muita vontade de  
fazer esse debate e assumir o desafio de fazer o Espírito Santo ser mais respeitado



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