Vidabrasil circula em Salvador, Espírito Santo, Belo Horizonte, Brasília, Rio de Janeiro e São Paulo Edição Nº: 301
Data:
28/2/2002
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“VidaBrasil-melhores de 2001”
Entrevista

O desabafo de Maria Helena  
 
Maria Helena Ruy Ferreira estreou na vida pública capixaba projetando-se como uma espécie de Evita Perón de Acioly, como chegou a escrever o velho jornalista amigo da família, Edmar Lucas do Amaral, para demonstrar a importância que essa descendente de italianos, nascida num distrito ainda de Ibiraçu, tinha para o marido, o governador José Ignácio Ferreira.  
Tocava 40 projetos sociais como secretária do Trabalho e Ação Social até que, a partir de um almoço cujo prato principal era frango ao molho pardo, reunindo um pequeno mas bem disposto grupo de adversários políticos do governo na casa do prefeito da acolhedora Alfredo Chaves, foi tramada sua queda e, se possível, a do próprio governo.  
Antes, uma declaração em forma de senha do senador Paulo Hartung em janeiro de 2001: “Não serei candidato ao governo porque, a continuar como está, o governador é imbatível”. Os aliados do senador juntaram-se e tramaram o bombardeio que paralisou o governo por um ano. Alvo preferencial: a primeira-dama, sem dúvida, o braço mais forte do governador.  
Capitaneados pelo prefeito Theodorico Ferraço, de Cachoeiro, os opositores despejaram denúncias e mais denúncias no Ministério Público. Parte da imprensa deu-lhes palanque e a pressão continuou. Caixa de ressonância política, a Assembléia Legislativa começou a discutir o assunto. Seguiu-se uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) instalada a partir de uma conversa entre o governador e o presidente do Legislativo, deputado José Carlos Gratz (PFL). “Não tenho o que temer, instale a CPI”, teria dito o governador.  
Foi um desastre. A CPI virou água de morro abaixo, ninguém mais segurou. No olho do furacão, Maria Helena foi afastada pelo marido da Secretaria que ocupava. Como desdobramento, denúncias atingiram também o irmão dela, Gentil Ruy, que era secretário de governo e acabou preso. Longos meses de agonia. Ele foi libertado por habeas corpus pouco antes do Carnaval.  
Na primeira entrevista que concedeu desde que se tornou alvo preferencial dos inimigos, Maria Helena chorou duas vezes ao relembrar os fatos. Mas durante a crise sequer conseguia falar. Ficou dois meses em Brasília, reassumindo suas funções no Senado. Acabou pedindo licença sem vencimentos para ficar junto com o marido. Foi e voltou de carro nos mais de mil quilômetros que separam Vitória da capital federal. Tinha vergonha de entrar no avião.  
Passados 12 meses do início do bombardeio contra o governo, Maria Helena parece ter transformado em raiva todo o sofrimento que passou. E não poupa nem mesmo as lideranças católicas, religião que professa desde menina em Acioly. “Nos condenaram antes de nos ouvir. Não nos deram conforto. Fomos encontrar amparo junto aos evangélicos, que vinham aqui dobrar os joelhos conosco”, revela.  
Maria Helena também desmente os rumores de que seu casamento de 30 anos com José Ignácio tenha corrido risco – “até que muita gente, que estava ao nosso lado, se fazendo de amiga, torceu para isso. A que ponto esta gente chegou, até nisto, eles quiseram mexer”, alfineta – e revela que, depois de tudo, está assustada com o ser humano, porém, nada irá lhe esmorecer o ânimo para retomar o trabalho social que pretendia dar esperança aos desassistidos, tirar crianças do trabalho infantil, levá-las para escolas, e resgatar da possível marginalidade adolescentes em faixa de risco.  
As obras sociais do governo praticamente pararam. A principal delas, a Fábrica de Sopa, mantida com doações de empresários e que alimentava a 30 mil pessoas por mês. “Gente que, antes, comia até lixo na periferia da Grande Vitória. Eles, por enquanto, conseguiram”, desabafa Maria Helena.  
 
– Que fim levaram os projetos sociais do governo, depois das denúncias que deixaram a impressão de que tudo parou?  
– Realmente os projetos sociais sofreram uma parada, porque todo mundo passou a ter medo de fazer ação social depois dessas denúncias infundadas e do massacre que eu sofri diante de tantas mentiras e sordidez. Hoje, aqui no Espírito Santo, fazer o bem e a ação social deixa as pessoas com medo.  
– Quantas pessoas chegaram a ser atendidas, por exemplo, pela Fábrica de Sopa, que era o carro-chefe?  
– Foi até bom falar na Fábrica de Sopa, que foi o projeto mais bonito que idealizamos. Chegou a atender 30 mil pessoas por mês. E isso foi uma campanha sórdida das pessoas que quiseram destruir o projeto. Basta ver que toda segunda-feira havia um parlamentar no Bom Dia Espírito Santo para falar contra a fábrica. Ela era mantida exclusivamente pelos empresários. Não tinha um centavo de dinheiro público.  
Estávamos crescendo com a fábrica e muita gente deixou de morrer porque foi alimentada com a sopa. Isso incomodou a muita gente que não queria ver o governo crescer na área social. Estávamos indo lá embaixo na periferia, aonde político nenhum foi. Esses que foram para a televisão criticar a fábrica de sopa, essa parafernália que criaram, foi porque nunca tiveram a mesa vazia. A mesa deles sempre foi farta.  
Estávamos levando a sopa para pessoas que não tinham o que comer, que estavam morrendo de fome. Eu fui testemunha de uma mãe de Cariacica que veio me dizer que havia perdido dois filhos, não por doença, mas por fome. Isso não comoveu a esses políticos que nunca foram lá.  
Quando viram que o governo estava crescendo na área social e podia sair para uma reeleição sem depender de nenhum outro político, só com o nosso trabalho, isso incomodou muito.  
– Na época que começaram a surgir as denúncias contra o governo, envolvendo a senhora, qual era o índice de aceitação do governador José Ignácio nas pesquisas de opinião pública?  
– Estávamos com 76% de aprovação e tenho certeza de que era nosso trabalho social que estava dando visibilidade ao governo. Qualquer governo pode fazer o que quiser na área econômica, mas se não fizer na área social não resolve nada. É lá que surgem todos os problemas: a mortalidade, a pobreza, a fome, isso leva ao vício, à droga, à morte, à falta de educação, à doença.  
Tivemos programas que é uma pena que terminaram. Eles conseguiram que os programas sociais praticamente esvaziassem. Estávamos atendendo a uma média de mil adolescentes de risco, entre 15 e 17 anos, no Agente Jovem.  
Vou contar para vocês uma história verdadeira, que aconteceu na minha presença e de mais dois assistentes sociais. Fomos procurar na periferia quem realmente precisava entrar no programa. Foram mil só na Grande Vitória e fomos pedir apoio e parceria de órgãos federais, como a Universidade, e particulares, como a Faesa.  
Tínhamos sala de aula, de segunda a quarta-feira, e recreação, quinta e sexta. Eles precisavam estudar para participar do programa. E fomos buscar a nossa Universidade. E era tudo pago, não era de graça. Era um convênio. No primeiro mês, a Ufes acolheu com muita dificuldade. Quando fomos entrar no segundo mês, a Universidade nos falou que era impossível ficar com aqueles meninos lá dentro, porque eram de risco. Eles eram mesmo de risco, rebeldes, mas estávamos conseguindo colocá-los para orientação na sala de aula.  
Esses meninos se viram na Universidade em outro planeta. Mas os professores vieram nos falar que não aceitavam mais esses meninos, porque eram rebeldes, tinham matado um sagüi, tomado banho na piscina, e que esses meninos não eram clientes deles.  
E eu disse: ‘Eu sei, professor, esses meninos não são seus clientes mesmo, porque são de periferia e andam de sandália de dedo. Os clientes do senhor são meninos que andam de Cherokee, com sapato de couro-alemão. Meus meninos só têm uma calça, às vezes vêm de calção rasgado porque não têm dinheiro para comprar, andam de sandália’. E não tivemos mais diálogo porque eles não aceitavam os meninos.  
Para que existe a Universidade Federal? Não é, também, para ajudar na ação social?  
– Que outros programas a senhora comandava?  
– Eram 40 programas sociais. Havia esse do Agente Jovem, o Criança Cidadã, para crianças de 7 a 14 anos, que ficavam conosco depois de deixarem a sala de aula e recebiam instrução de instrutores.  
Tivemos também um programa que foi referência para o resto do Brasil: a Erradicação do Trabalho Infantil (PETI). Começamos em Baixo Guandu tirando os meninos da pedreira e levando para a escola. Havia crianças de dois anos quebrando pedra. Foi um programa pioneiro, já espalhado pelo Estado todo.  
Mas é aquele negócio: você enche o balão e depois tira o gás do balão e ele cai.  
– Quem está tocando esses projetos agora, já que a senhora não é mais secretária?  
– Eles estão tocando lá na Secretaria, mas aquilo que eu havia passado, aquele entusiasmo, a garra, tudo isso caiu. Todo mundo recuou porque ficou com medo. A reação era: se ela, que é primeira-dama, está sendo atacada desse jeito por fazer o bem, imagine nós, que somos simples funcionários, o que vamos passar.  
– E parece que, com o orçamento muito restrito para a Secretaria, a figura da primeira-dama à frente dos projetos sociais servia para atrair os empresários para ajudarem no programa. É diferente de um funcionário ir lá buscar apoio.  
– Pois é, a gente acha que as demais pessoas agem como a gente. Entregamos a fábrica àquele senhor e ele começou a usar meu nome para pedir dinheiro.  
– Aquele senhor que a senhora está falando é Wilson Vilharga?  
– É Wilson Vilharga. E ele nunca me fez uma prestação de contas. Todas as vezes que eu pedia isso ele falava que estava tudo bem e que eu não precisava me preocupar. Eu queria saber o que ele recebeu, e o que gastou, mas ele nunca me prestou essas contas. Tanto é que quando eu o demiti carregou toda a documentação da fábrica com medo de uma fiscalização. O Ministério Público não fez uma fiscalização lá dentro com os documentos que ele carregou e que não lhe pertencem, são da Fábrica de Sopa. A verdade, é que envolvida em mais de 40 projetos, terminei por privilegiar o “macro”. Confiei o dia-a-dia a outras pessoas, e não podia ser diferente.  
– A senhora tem uma ficha, como funcionária do Senado Federal, com mais de 20 anos. Já foi diretora do Senado. Depois desse tempo, a senhora se vê diante de um processo sendo acusada por um cidadão. Ficou sua palavra contra a dele. Como a senhora se sentiu com esse rolo compressor? Foi traída em sua boa fé?  
– Ele mesmo, diante da CPI da Assembléia, disse que eu não pedi nada a ele. Perguntaram se ele tinha prova da acusação que fez. Ele disse que não e que eu não pedi nada. Há um depoimento de um empresário que ajudava a fábrica, o Alexandre Lessa, falando que a segunda mulher do Wilson disse que se ele não ficasse do lado da TA Oil seria detonado pela TA, que tinha muitas gravações contra ele, inclusive algumas em que ele, Wilson, pedia dinheiro para si próprio.  
Eu entreguei um programa social ao Wilson e nunca imaginei que pudesse ser traída por uma pessoa que estava ali do nosso lado, que participou da campanha, veio da campanha, foi presidente do Sindicato dos Fiscais. Depois, levantamos a ficha dele e vimos que ele já tinha tido punição na Secretaria da Fazenda por tentar extorquir dinheiro de empresários, vimos que tratava-se de um escroque.  
Mas não sabíamos de nada disso porque não tivemos essa preocupação de ficar investigando as pessoas. Hoje, não. Você levanta a ficha de qualquer pessoa candidata a cargo de confiança.  
– A senhora não tem fita gravada contra ninguém?  
– Não, não tenho. Até porque não é esse nosso hábito.  
– Não é estranho que de repente apareçam diversas fitas para fazer acusações contra a senhora e o governo?  
– Celso, essas fitas que eles dizem não têm nenhuma fala minha ou do governo pedindo qualquer coisa. A fita que eles dizem ter foi toda montada, três ou quatro pessoas conversando com gravador dizendo que fulano fez isso, beltrano fez aquilo. O próprio dono da TA não tem como provar, porque nunca pedi nada a ele.  
A fábrica foi construída com os empresários, mas nunca botei a mão em nenhum dinheiro destinado a ela. Quem tem que prestar a conta disso é o sr. Wilson. Ele que esteve na frente da fábrica, comandou, dirigiu, pegava dinheiro do empresário. Pode percorrer o Estado, empresário nenhum pode dizer que eu pedi ou peguei qualquer dinheiro.  
– Parece-me que são cento e noventa e poucos empresários fundapianos que mantêm esse trabalho social, doando 0,45% de seu orçamento para esses trabalhos. Como surgiu isso?  
– Os empresários queriam contribuir, porque eles mesmos sabem que não podem ignorar os problemas sociais. Amanhã aquele menino que ele deixou de ajudar pode estar na porta da casa ou do carro assaltando sua família. Eles têm consciência dessa necessidade.  
O que fizemos foi induzi-los a participar e houve uma reunião no Sindicato dos Exportadores e Importadores, quando decidiram contribuir. E quem não quis contribuir não contribuiu. E foram poucos, menos de 10%. E assinaram um termo para fazer tudo legal. Não é nada escondido.  
Nunca houve quem desse mais de R$ 1 mil.  
– Quanto é que custava a Fábrica de Sopa?  
– Eu não sei, porque ficou tudo na mão do sr. Wilson Vilharga. Eu não sabia quanto entrava. Quando perguntava pela contabilidade, ele falava que estava tudo bem, tudo certo.  
O mais sórdido do Wilson é porque ele tem consciência do que lutei e do que ele roubou da Fábrica de Sopa, dos empresários, usando o meu nome para isso e depois fazendo acusações. Ele sabe disso e a mulher dele também sabe, porque participava disso.  
Quando o demiti da fábrica, ele viu que tinha perdido a mamata, tinha perdido a fonte de renda, e resolveu sair fazendo acusações.  
– Em que momento a senhora resolveu tirá-lo da direção da fábrica?  
– As pessoas há muito tempo chegavam e falavam que o Wilson estava usando meu nome para pegar dinheiro com empresário. E eu sempre dizia: ‘Não é possível’. Mas quando um empresário chegou para mim e falou, chamei o Wilson e disse que não tinha condições de continuar na fábrica por isso e aquilo, expus os motivos.  
As pessoas que trabalhavam com ele são testemunhas de que, toda vez que eu falava que iria visitar a fábrica, ele tirava qualquer resíduo que poderia me levar a descobrir as coisas. Ele escondia e não deixava que eu visse.  
– Hoje a fábrica está fechada?  
– Não. A fábrica era dos empresários. Agora, eles a doaram ao governo, que fez um decreto transformando-a em patrimônio da Secretaria de Ação Social. Foi feito um levantamento de preços. Logo que esteja concluído, novas latas serão confeccionadas e a fábrica voltará a funcionar.  
– Quando é que a senhora acha que vai voltar? Está parada desde quando?  
– Está parada há uns quatro ou cinco meses. A fábricadeveria ter voltado agora em janeiro, mas não deu por causa de problemas de orçamento.  
– Há muito tempo o Estado não teve uma primeira-dama como a senhora, apesar de hoje a senhora estar recolhida por causa das denúncias. Em função de sua atuação, o governo passou a apresentar um trabalho social que nenhum outro governo mostrou. A senhora acha que houve medo, por parte de algum outro segmento político, adversário do grupo que está hoje no Palácio Anchieta, de que a senhora pudesse crescer muito e que surgisse uma nova liderança. As pessoas costumavam compará-la a Evita Perón por causa de sua figura forte junto ao governador. Afinal, esse processo foi deflagrado com uma frase do senador Paulo Hartung de que não seria mais candidato porque o governador era imbatível. E o plano para detonar a Fábrica de Sopa foi feito numa mesa de galinha a molho pardo em Alfredo Chaves. Houve esse medo, a senhora acha?  
– Lembro de um artigo da revista “Século” onde o Rogério Medeiros dizia que eu seria candidata a deputada federal ou até senadora. Eu nunca tive pretensão de ser candidata a nada. Primeiro, porque achava que meu trabalho era tão bonito, eu estava ajudando a tanta gente... olha, eu subi morro, fui naqueles barracos, lugares aonde nossos senadores nunca foram... deputados e deputadas nunca foram. Vi gente comendo pedaço de papelão, por isso achei que devia fazer meu papel, estar do lado desse pessoal.  
Então, acharam que eu era candidata a alguma coisa só porque estava ajudando as pessoas que mais necessitavam. Tive mães que se ajoelharam em meus pés para dizer que eu tinha resgatado os filhos delas, tive mãe que se ajoelhou em meus pés... (a voz embarga, Maria Helena chora) e disse que não poderia deixar de receber R$ 65 que era para botar comida na mesa. Gente que estava comendo papel, comendo lixo, coisa que duvido que deputados que fizeram o Estatuto da Criança, senador que parece preocupado com a educação, conheçam isso.  
Crianças com berne no rosto, no pescoço, e que levamos ao hospital para tirar aquilo, que elas adquiriam no meio do lixo. Esses deputados e senadores nunca estiveram onde estive. Por isso acharam que nós estávamos imbatíveis, porque fomos aonde eles nunca foram. Gente que tem mesa farta não precisa de mim e nem do governador. Quem precisa de nós são as pessoas que estão comendo lixo na mesa.  
– O que mudou na vida da senhora, na vida da cidadã e da primeira-dama?  
– Mudou muito. Chorei muito, senti muito a injustiça do homem e passei a perceber a maldade. Recebemos muita solidariedade de pessoas que nos ligavam, faziam orações, mas descobri que o homem é sórdido, mau, egoísta, perverso. Quando se dispõe a fazer o mal vai arrastando as pessoas sem se preocupar que um dia pode estar na rua da amargura.  
No dia de Natal, as pessoas pediram e vieram aqui ler a Bíblia, consolar. Eu sou católica, fui criada na Igreja Católica e quando nós mais precisamos não tivemos conforto. Antes de condenar, tinha que ter nos ouvido. As pessoas consideradas líderes da Igreja Católica, nos condenaram. Fomos ter apoio entre os evangélicos. Foram eles que vieram nos consolar, colocar o joelho no chão junto conosco.  
– De onde veio a decepção maior, dos amigos ou da classe política?  
– Acho que da classe política, porque amigos são poucos. Na política você tem pouquíssimos amigos, tem conhecidos. Amigos são muito poucos. Sempre tratamos nossas vidas, eu e José Ignácio com uma retidão de conduta que é a nossa marca. Ele nunca desviou o comportamento como promotor, como advogado, como senador, e não seria agora, no governo, aonde ele tanto desejou chegar, que colocaria tudo a perder, para desmontar uma vida inteira.  
Alguns políticos não entenderam essa caminhada dele, até porque julgam os outros pelo comportamento deles.  
– Onde foi que a senhora acha que o governo errou para que houvesse todos os problemas que ocorreram no ano passado?  
– (pausa) Nem sei fazer essa avaliação. Acho que foi um pouco na boa fé, acreditando que poderia fazer um governo confiando nas pessoas, mas não saberia dizer onde e quando foi.  
– Pelo que conversamos, parece que tanto o governador quanto a senhora se preocuparam com o macro, mas não se preocuparam com os detalhes. Como no exemplo da Fábrica de Sopa, que acabou entregue a pessoa que se revelou não confiável. Pode vir a ser isso, de que a execução acabou ficando nas mãos de terceiros?  
– Não sei se é exatamente isso. Eu não consigo fazer essa avaliação. A gente não sabe como foi. Talvez se tivéssemos de recomeçar faríamos tudo diferente.  
– No auge da crise, a senhora conseguia dormir? Como era a vida da família nesse período? Se disse tanta coisa, e o governo ficou tão sem palavra. Muito ataque e pouca defesa. Colocou-se até que a senhora e o governador estariam se separando.  
– Foi muito difícil. Conversamos muito, eu e o José Ignácio. E a gente botava as coisas, analisava, para ir tirando as conclusões. Acho que muita gente esperou que houvesse mesmo esse rompimento, e até torceram por isso. Mesmo pessoas ligadas a nós, de dentro do governo. Pessoas que a gente achava que eram amigas. E pediram ao José Ignácio para que ele se separasse de mim, porque poderia sair livre dos problemas.  
Conversamos muito e chegamos à conclusão de que, além da crise que criaram, essa era mais uma coisa que eles queriam que acontecesse.  
– Mas houve realmente esse risco de separação?  
– Não, não houve. Nosso casamento foi feito em cima de muita solidez e base cristã e não só em cima de alegrias. Foi em cima de lutas, tristezas, lágrimas. Há muita garra e determinação daquilo que queríamos. Sempre caminhamos muito juntos.  
Eu trabalhava na Vale do Rio Doce, tinha emprego estável. Era uma época em que dois lugares pagavam os melhores salários: a Vale e o Banco do Brasil. E eu era funcionária da Vale, mas larguei meu emprego para ficar junto com o José Ignácio quando foi cassado em 1969 e foi advogar. A gente acreditava que poderia crescer juntos.  
Montamos o escritório de advocacia, onde trabalhávamos dia e noite, de segunda a sexta-feira, para saldarmos nossos compromissos. Quando surgiu esse negócio de que pegamos dinheiro de campanha para pagar nossos compromissos é outra mentira. Sempre tivemos nossa reserva, sempre trabalhamos muito, investimos em bens nossos. O José Ignácio era homem de virar madrugada trabalhando em cima de processos para ter a solução dos problemas.  
Tudo o que temos adquirimos com nosso trabalho. O José Ignácio saía do escritório às cinco horas da manhã para que, às oito, quando a secretária chegasse estivesse tudo lá para ela datilografar, porque naquele tempo não havia computador. Isso para que ao meio-dia a petição fosse entregue no fórum. Foi muita renúncia de muita coisa.  
Quando todo mundo ia passear, se divertir, o José Ignácio estava trabalhando, e eu estava do lado dele, criando nossos filhos sem nenhuma sofisticação. Quando ele chegou ao Senado nunca meus filhos usaram a frase “você sabe com quem está falando”. Essa acusação do vice de que usamos esse dinheiro ele nunca poderá provar, porque não existe e nunca existiu isto. Há pouco tempo aliás, a Receita Federal em certidão, comprova a absoluta compatibilidade entre nossos bens e nossos recursos disponíveis.  
A promotora sabe que não tem provas, disse isso no despacho dela, mas fez a denúncia. Que negócio é esse? Onde estamos? Cadê o direito, a lei, que exige a prova de quem acusa?  
– De uma agenda sempre lotada, de olhares de admiração, de repente uma agenda esvaziada e olhares desconfiados. Como isso bateu no coração da senhora?  
– As cicatrizes são muito profundas, as feridas muito grandes. As cicatrizes vão ficar e só o tempo pode diminuir suas marcas. Mas acho que isso vai ficar para o resto da vida. Até hoje acordo à noite sobressaltada, assustada.  
– Dona Maria Helena, se é que é possível distinguir a intensidade da dor, o que doeu mais: as primeiras acusações sobre a senhora ou as acusações posteriores que levaram seu irmão, Gentil Ruy, a ser preso?  
– Foi muito sofrimento. Precisamos cercar minha mãe, que tem 80 anos, para que ela pudesse sentir menos isso, pois sempre fomos muito unidos. Somos uma família de gente simples, trabalhadora. Acredito que a justiça será feita também ao meu irmão, porque diante de Deus eu tenho certeza de que ele foi absolvido. Acredito na inocência dele.  
Essa coisa toda, para mim, foi um complô. Atingindo a mim, à minha família, atingiriam o governador. Na verdade, o que eles queriam era pegar o governador e derrubá-lo. Mas ele é sólido demais. Como eu.  
– Vários profissionais que trabalharam com o governador José Ignácio, e que foram assistentes dele quando era advogado e mesmo na vida pública, e aos quais ele ajudou a subir na vida, hoje estão em posição de destaque. Essas pessoas, nesses momentos difíceis, estiveram ao lado do governador?  
– Sinceramente, a gente nem contabiliza essas pessoas. Nos conhecem há mais de 30 anos e vão pela opinião pública e pelos jornais e em nenhum momento dizem que acreditam em nós, nos condenam antes de saber o que aconteceu, é lamentável.  
Nossa vida nunca teve segredos. Nosso Imposto de Renda, nossas contas bancárias, tudo isso sempre foi devassado e nunca descobriram nada que pudessem dizer que pegaram alguma coisa. Porque não existe nada.  
Essas pessoas que cresceram junto conosco não estiveram ao nosso lado. Esse é o meu ponto-de-vista, o José Ignácio pode até discordar, mas é o que sinto.  
– Isso leva a senhora a desacreditar no ser humano?  
– Eu nem saberia definir o que é o ser humano. Hoje olho com certa indiferença para o ser humano. Meu coração fechou muito. Eu era uma pessoa que ficava muito comovida com a situação das pessoas, mas hoje, antes de me comover com os outros, tenho que olhar para dentro de mim e ver meu sofrimento, que foi muito grande.  
– Isso incluiria uma desmotivação para fazer o que a senhora vinha fazendo?  
– Quase conseguiram me desmotivar. Hoje, para eu olhar o ser humano, eu tenho que olhar para dentro de mim.  
– As coisas estão se clareando, o governador está ficando mais solto para fazer o trabalho dele. Eu perguntaria: como está sua vida agora e como vai ser daqui para frente. O que a senhora está fazendo e o que pretende fazer?  
– O que mais quero é resgatar essa imagem minha que ficou. Imagina, todo dia no jornal, na televisão, a pessoa falando mal de você. De repente, as pessoas acreditam nisso. Minha missão é resgatar minha imagem, mostrar ao povo capixaba que foi uma grande montagem política. Há pessoas que chegam para mim e dizem ter até pena porque eu fiquei no centro de um complô político e fui a maior prejudicada.  
– Invertendo os papéis, vamos botar nossa mão à palmatória. Agora, quem bate é a senhora. Como a senhora avalia o comportamento da imprensa nisso tudo?  
– Alguns setores da imprensa queriam coisas do governo que o governo não podia dar. E ela partiu para a agressão, para desmoralizar. E a gente sabe que a imprensa tem sua força. O governo não podia dar o que queriam e partiram para o ataque. Fomos bombardeados e não tínhamos como revidar.  
– A senhora apoiaria uma eventual candidatura de seu marido à reeleição?  
– Não sei, isso está tão longe! E eu ainda estou muito machucada e desiludida. Pessoas em que a gente acreditou e confiou traíram a gente. Eu chorei muito. Cheguei numa época que não podia conversar com ninguém... (mais uma vez se emociona, a voz embarga e a primeira-dama chora) mas a gente vai adquirindo força  

  




















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